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 Coluna 02

Planos


Todo santo ou diabólico ano os seres pensantes e angustiados na vida fazem tudo sempre igual: promessas no fim do ciclo e planos no início do vindouro. E mesmo que se queira agir de forma diferentona: “esse ano não vou fazer nenhuma promessa, nenhum plano, vou deixar a vida me levar”, você acaba fazendo tudo igual e os projetos pegam seu ser todinho. Admiro igualmente quem se empenha nos planos e quem se nega a eles, tendo sucesso ou fracasso. Não é incoerência minha. É aceitação do humano, já que não podemos ser como meus gatos, esses sim, fazem tudo sempre sempre igual - do sucesso em dormir quase o dia todo não importa a superfície ao fracasso em capturar os inocentes insetos voadores.

A humanidade é muito grande e diversa, portanto qualquer generalização é leviana. Então, sendo leviana, posso afirmar que todos os desejos, por mais diferentes que sejam, englobam três aspectos: o material, o físico e o emocional. 

O material básico é emprego, carro, casa e dinheiro, não necessariamente nessa ordem, não necessariamente todos os anos, não necessariamente tudo isso nem tudo ao mesmo tempo. Às vezes sim. A menos que você herde bens, não está livre desses desejos, alguns são necessidade mínima, assegurados pela Constituição Federal. No papel. Eu que sou herdeira da ancestralidade - força, resistência e amor ao próximo apesar de -, sigo buscando esses bens, equilibrando desejo e necessidade. E rezando para que cada cidadão dessa terra também consiga furar o sistema que nos quer abaixo da linha da pobreza. Rezar pode não ser nada, mas como me é diário, mantém minha mente alerta e descobrindo ações reais possíveis. 

O físico é o corpo real, imaginado, desejado, criado pela sociedade e incutido em cada um de nós pelas garfadas, cremes, leituras, imagens vistas, palavras e olhares lançados. É uma atividade física que nunca se fez ou que se quer continuar apesar de o corpo não ser mais o mesmo para acompanhar os movimentos. É uma nova dieta milagrosa que tenta a mente já calejada no “não vai dar certo”, mas cegada pelas fake imagens, mesmo que muito já se fale - Amém, Axé! - sobre aceitar o próprio corpo pela naturalidade do que ele é e de seu transcurso na terra, não pela castração do padrão de beleza imposto. Tem a saúde. Tem. Mas é o médico e nossas dores e inaptidões que orientarão o que fazer. Ainda que digam o contrário para quem é mulher, preta, gorda ou as três ao mesmo tempo. 

O emocional é causa e resultado dos outros dois: um namoro, um casamento, uma vida social e sexual ativa, filhos, família em dia, amizades, sanidade mental. Parece o mais simples. É o mais complexo. Depende de tudo e todos ao redor. Os manuais de auto-ajuda vão dizer que “depende só de você”. Você amanhece o dia feliz e anoitece mal. Ou o contrário. Fica um tempão na maré baixa e de repente tudo vira. Ou o contrário. É tudo muito diverso, sem receitinha. E segue vivendo. Alguns não...por si mesmos ou pela vida que leva embora ou um dia apenas acaba. Sempre. O que fica é o que vão contar. 

 Peço perdão pelo clima, se você me acompanhou até aqui. É que a vida tem muitos encantos, mas muito mais “enquantos”. Um vive outro morre; um é promovido e outro perde o emprego; um tem mansões, outro nunca teto; um constrói casa e outro perde na enchente; um celebra anos de união e outro continua solitário; um luta por seus direitos e outro os cancela… Enquanto escrevo essa crônica, frustradinha porque não cumpri o prazo que me impus, tem gente morrendo de Covid19 sem oxigênio em Manaus. Enquanto milhões estão pensando na validade de seus planos de futuro, o presidente do país diz que já fez a parte dele. Meus gatos continuam dormindo. Apenas eles.


POEMIA


Dentro do peito

Dentro da mente

Dentro do coração

Dentro do espírito

Tem muita bagunça

Tem muita incerteza

Tem pouca calmaria

Tem pouca leveza

Agora na quarentena

Antes da quarentena

Muito antes da quarentena

Depois da quarentena

Na certa.


Lá fora o vírus

Lá fora a imprudência

Lá fora a política

Lá fora a economia

Aqui dentro o medo

O medo

Só o medo

O medo só.


E vez em quando,

Na tentativa de buscar a serenidade na escrivinhação  

- que tem escapado -

No monte de palavras repetidas,

Prosaicas pra um poema,

Fracas em imagem,

Duras pra uma crônica,

Ralas pra um conto,

Incoerentes pra uma carta,

A figata se aninha no meu colo

Me fazendo dizer seu nome em voz alta:

Felícia! 

E o figato vem dividir o calor

Me fazendo sentir seu peso:

Pedro!


Todo mundo tem dito e repetido

Estou ouvindo, gente

Mas acho que só eles me fazem entender de verdade o

"Vai ficar tudo bem". 

Então volto a ver as cores

A respirar mais aberta

A esperançar

A responder enfim as mensagens

A conseguir e querer falar

A acreditar que voltaremos a abraçar.


No tempo deles, breve, 

Mudam de lugar, vão brincar com qualquer bobagem caída no chão

E deixam em mim o que eu quase havia esquecido...

E eu me levanto,

Amando novamente.


(inédito, abril de 2020)



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