Preta em Traje Branco | Quinteto de Versos de Valéria Rufino


Coluna 7

Quinteto de Versos de Valéria Rufino


Poesia

Não se explica

Mas implica

 

Olhos sem pálpebras

Vou fechar os meus olhos

e me perder no vazio.

Dentro da escuridão imensa,

Onde eu não veja o sofrimento,

nem tão pouco me sinta inútil.

Nesse vazio na alegria mortal

Na vida sinto a morte

como um pulsar de dor intensa,

Ah! Essas células que me foram impostas,

Vida que eu não te quis,

Vida pela qual nada fiz.

 

O sol brilha iluminando a podridão,

o vento sopra a poeira do chão

em olhos sem pálpebras,

de um ser quase inato,

Que sofre sem ter

Que morre sem ver.

 

Eu durmo em minhas críticas,

e acordo navegando em súplicas.

Não quero mais abrir os meus olhos,

quero dormir eternamente,

pensando na morte é que me sinto gente.

 

Cotilédone

Nascer é sentir o prazer esgotante da primeira respiração.

É esticar as pernas pra fora do corpo de uma mulher,

Como a primeira folha que surge do sêmen.

Mostrando sua cor verde na terra vermelha sangue,

Parece que vem surgindo do éden...

O encontro do ser humano e o ar puro de poluição,

E da folha verde com a terra sangrenta,

É tão cheio de uma falsa ingenuidade,

Uma relação ligada a puberdade.

O ódio é o cotilédone do homem.

Inocente é quem quer dominar outras mentes

Alma que mente, corpo que sente

A paz é produto da dor

O ódio já nasce ao lado de um suposto amor.

Guerrear!

Fazer vidas para matar!

Jogar no mundo uma alma forte,

Juntando-a às podres

Que de tão fracas se julgam fortes,

Que já sem vida dos outros querem a morte,

Como se a morte fosse algo terrível.

Como se conhecêssemos o segredo dessa imensidão.

O mundo é tão grande...

A vida talvez... se tenho grana, tenho sorte,

Posso até afastar a morte

(ficar mais tempo no hospital)

Cotilédone deposito em você minhas dúvidas,

A esperança, germinadora de heróis... o que é herói???

 O nascimento de uma ideia,

É o despertar de tantas vidas,

Que de tão monótonas serem suas vidas,

Morrem a cada segundo.


***************

 

Sexo

Lábios carnudos sedutores

Se desencadeia a língua

Por entre os dentes

Sedenta deita se sobre os ombros

Sobre o corpo nu

Nuca, pelo... boca.. nunca

Nume o lume

Céu, véu... prazeres

Seio, pênis penetrando

Se fazendo penetrar

N’alma

Vagina espiritualmente sexual

Sexo vivencia carnal.


***************

 

É tanta citação

Que nem sei quem são

 

Quando não falo

Falo 



                                 Quando não grito

                                      Gripo


***************

 

 

Valéria Rufino Martins, paulistana, professora de história, Mestre em educação. Poeta e educadora. Sua escrita traça poemas curtos, inspirações em haicais, poesias concretas e produção de vídeo-poesias. Valéria por ela mesma: “eu sou eu, mas nem sempre eu, nem sempre sou”.







 

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