De sacadas e varandas | Marilia Kubota

 

MOSAICO Coluna 28    Crônica

DE SACADAS E VARANDAS
por Marília Kubota

Moro num pequeno apartamento de um quarto, no centro de Curitiba. Há uma sacada para a rua, para a qual, há alguns meses, arrastei a mesa de trabalho. Assim posso receber mais luz, à tarde, e ver o sol se pôr. Dali, vejo apenas dois vasos da área comum de meu condomínio, as lixeiras, os prédios vizinhos e um trecho da rua. 
Na casa de meu pai, em Paranaguá, ao contrário, há uma grande sacada dando para a rua. Lá dá para ver uma praça onde está instalada a Biblioteca Pública Municipal, um estacionamento,  várias casas, muitos prédios. Estou tergiversando sobre vistas de sacadas. Gostaria de falar sobre a vizinhança.  
Meu  vizinho em Curitiba tem gaiolas com  pássaros que cantam durante quase o dia inteiro. No início da pandemia, enquanto eu cumpria o isolamento social restrito, eram eles que me alegravam.
O vizinho da casa de meu pai também cria pássaros. E plantas. Da janela de meu quarto, dá para ver um mamoeiro, uma ameixeira, um limoeiro, uma castanheira e quando florescem,  repolhudos girassóis.
Ao avistar a ameixeira, hoje, lembrei da infância. Minha mãe cultivava um jardim, onde plantou um pinheiro e uma ameixeira. E havia ainda, um limoeiro, hibiscos, azaléas e rosas.  Quando criança, não prestava atenção em flores. Só lembro de marias-sem-vergonha. Eu e minha irmã buscávamos as flores para nos divertirmos com a brincadeira de apertar seus botões. Brincávamos, também, com o pistilo do hibisco. Tirávamos a haste sumarenta para colar no nariz. O pinheiro era usado para pendurar  bonecas ou escondê-las. 
Não usávamos a ameixeira em brincadeiras. A sua gostosura eram as frutas amarelas, dulcíssimas, que comíamos uma vez por ano. O vizinho já cultivava o mamoeiro e a ameixeira que hoje avisto da janela. E, para o espanto de todos, criava uma família de veados e um casal de jacus.
O nome do vizinho era Brasilino Abud. Ele havia sido prefeito de Paranaguá. Na meninice havia morado numa chácara. O amor por plantas e animais era imenso. Minha mãe morou num sítio, quando criança. Eles conversavam durante horas sobre memórias de infância.
Um dia, meu pai resolver cortar o pinheiro. Logo depois, foi a vez da ameixeira. E em alguns anos, quando ele ergueu o sobrado em que vive até hoje, o jardim deu lugar a uma garagem. Minha mãe levou o jardim para dentro de vasos. Não plantou pinheiros, mas azaléas. As azaléas floresciam, até quando morreu. Depois, meu pai, achando que dariam  trabalho, resolveu acabar com os vasos. 
Ouço pássaros cantarem, na casa de meu pai, escondidos entre o mamoeiro e a ameixeira. No meu apartamento, são canários que cantam. Algumas vezes, a música da natureza  persiste em  varandas que tornam a paisagem  cada vez mais diminuta.  


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