De Prosa e Arte | Numérico - de encontros insanos, amores escassos, vamos ao jogo!


Coluna 16


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Numérico - de encontros insanos, amores escassos, vamos ao jogo! 

Ela não tinha ideia do poder que escondia na sua aparente timidez, aquela pulsão que às vezes a acometia, não sabia de onde vinha. Tinha medo da própria lascívia. A vida toda tentou conter, controlar, sufocar a sua insaciedade. 


Quando o radialista chegou ela ainda não se sabia tão voraz. Não imaginava que aquele encontro era gatilho para disparar sua natureza esfomeada, dele só soube o primeiro nome, dois encontros casuais, encantou-se de seus dreadlocks. Mas a culpa consumiu a consciência, por isso às vezes se esquece do gosto.


Jurou não mais ceder a própria insanidade, pois tinha medo de descer ladeira abaixo sem controle. Então, concentrou-se em manter seus pés e o resto do corpo distante de problemas... mas aquele chegou com pés de bailarino, e valsaram alegres por uma boa temporada. Ele lhe apresentou um espelho diferente daqueles que ela conhecia. Devolveu-lhe a sede de amar a mulher negra que era, que ironia! Um homem branco. Mas assim como ela, era da dança, da música, das paixões. Quando se enamoraram ele resolveu declinar, e ela tão pouco podia permanecer. Sim, ela soube que ainda havia fetiche naquele contato. Ele tinha outros planos com as suas iguais.


Sim, agora estava decidida a colocar a vida no prumo, acertar a cabeça e manter o que já tinha no contrato, mas tudo lhe doía muito, e aquela violência antes simbólica agora estampada na pele, fez a ira e a vontade de se libertar maior. Ela nutriu uma relação abusiva, complexa  que a virou do avesso. Ainda assim, resistia ali naquele não lugar que um dia já tinha sido seu. Mas quando aquele preto chegou foi encantamento, ele da curimba dividiram as angústias. Ele vinha de fim do Amor. Ela da continuidade. Cantaram e tocaram juntos. Mil coisas afins: teatro, cinema, jantares, viagens curtas, o apego. Ela sempre mais.  Nunca soube andar no raso. Um único e derradeiro encontro e mais três dias de vácuo ou qualquer outra menção ao que houve. Sofreu e chorou largada. A temporada seguinte foi de luto.


Desistia de gargalhar e apenas falseava um riso torto pra passar despercebida na multidão. Parou de acreditar em sonhos, caminhava na realidade, dura e embrutecida. Autoestima soterrada e  ombros arqueados.

Mas ainda lhe restava música e seu canto de sereia o enfeitiçou. Ela não fez de propósito, mas em retribuição ele lhe sussurrou paz aos ouvidos calejados das mentiras antigas. Foi tântrico. Multidimensional. Foi cósmico, hipersensorial. Ativados todos os sentidos, o deslizar de óleo aromático nos corpos, as vivências nas próprias texturas, o tato. Olfato. Sabores: vinho e chocolate. Foi auditivo, verbalizaram o que sentiam, dois corpos que faziam versos inteiros, soprando gemidos de prazer. Dois encontros. E a unção. Foi sagrado demais pra se olharem só com libido. Foi cura. Curados trilharam seus caminhos que eram distintos e diversos.


Nessa ânsia incompreendida de buscar o que lhe faltava, pois ainda não tinha dimensão da completude em si, entrou num ciclo vicioso de afetos esporádicos. O contrato já estava vazio a tempos.

Daí numa esquina qualquer se embolou num corpo Arte, delgado, esguio, mas de nariz empinado. Este a conquistou pela espera, pela música.. Era um jogo tosco de gata e rato. Uma bobeira de vamos lá, seguida de deixa disso. Esse ela entortou e foi por capricho, pra ver qual era. Jovens, tão vaidosos, desinteressados e egoístas. Ela até achou gostoso, esperava mais. Jovem místico com nojinho. Mas não recusava os serviços orais dela. Ela ainda ganha mimos. Parece que o jogo virou né, parça?


Pronto, agora estava ligeira, decidiu parar por ali, pois uma hora ia dar ruim. Focou no trabalho, nas novas parcerias, em sossegar o mental de tanta energia desprendida.

Não teve jeito, foi arrebatada de primeira, quando ele passou por ela, uma corrente elétrica lhe percorreu a espinha. Era um mestre em lentes de aumento. Era o breu, talvez como ele dizia: o improvável comprovado. O desejo, a loucura, necessidade, o toque que ativava toda sua energia livre. Era a lente que lhe desenhava os contornos, desvendava a sombra do olhar que ela trazia sempre disfarçada. A gargalhada-rugido que queria ouvir mais vezes, o abraço onde cabia toda. Mas estavam de passagem, ambos com contratos firmados. E o desejo latente. Ela já se achava perdida e estradeira. Vez ou outra permitindo que a resgatassem da sua andança sem bússola. Ele confuso, assustado. Se deixando ir. Envolvidos. Enamorados. Caminhantes, apenas.


Ela não sabe onde começa e onde termina. Vai às vezes fazendo uma fria análise de todos esses (descaminhos) nem sabe quantas faces de si já foi. Mas agora revela o que gostaria de ter sido sempre: inteira, apaixonada por si. Nada lhe tira a espontaneidade de ser como é, de ser com o outro e entregar-se como deseja.

 

Se é amor, o que sente? Não sabe de que tipo. O amor tem muitas faces, é um jogo de tabuleiro, é uma peça circular numa mesa de encaixe quadrado às vezes. Não é assim tão romântico.


Nessa vida estamos jogando, pra ganhar ou perder, avançando juntos, recuando, parando uma rodada.

Hoje, ela se sente em empate técnico com o mundo das paixões.

 

Nessa roleta russa quase sempre todos ganham por um tempo. Se um jogador perde, todos os envolvidos choram a derrota. Porque nesse jogo Amor Eros nunca estamos sós. O preço das escolhas é alto. Então nos resta fazer a aposta e rolar os dados.






 

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