Preta em Traje Branco | Reminiscências - uma resenha poética de Mada Scavassa

 


Coluna 6



Reminiscências - uma resenha poética de Mada Scavassa
 

Conceição Evaristo narra as mazelas sociais, a vida sofrida nas periferias, os preconceitos, a violência com os corpos negros, prostituição, abandono e mortes. Da tecitura de suas narrativas, resgato minhas memórias e os olhos naturalmente se enchem d'água. Verdadeiras nascentes! 

Iguais as da minha infância, que de pequeninas corriam e formavam o Pinheirinho. Íamos nadar, sem a permissão dos nossos pais, não era muito raso e eles sabiam disso, conheciam bem, porque usavam para lavar as nossas roupas, quando faltava água. 

Conceição é mineira como minha avó, minha mãe, já no primeiro conto me fez viajar até Olhos d’água, Januária, mesmo com a abundância do Velho Chico, que irritava boa parte da lavoura, a fome imperava. Fala da parca comida, o vazio do estômago e a garganta chega dar um nó. Não vivi isso, minha avó nos reunia para contar sobre a vida difícil na roça, a morte do meu avô, por malária e a vinda para São Paulo, com as duas filhas descalças. Uma com 9, outra com 7, sem saber do paradeiro dos outros dois mais velhos. 

Vieram de trem e dormiram alguns dias na Estação da Luz, até migrarem para Ribeirão Preto. Foram morar em uma fazenda de cana, trabalhavam em troca de comida e moradia. Reconhecer os traços de um Brasil desigual, em que muitos dos meus foram dizimados. 

Olhar para as mulheres de minha família, tudo o que passaram, aguça minha reflexão sobre as misérias das personagens e as que fizeram e fazem as pessoas migrarem sem trabalho, sem estudo, sem nada, muitas delas passam a viver em condições subumanas em cortiços e favelas e parte delas compõe nosso núcleo escolar. Viver na periferia, carregar na pele, certamente quem vive isso/viveu terá muitas histórias, muitos relatos, muitas cenas semelhantes, que hoje mesmo no cotidiano da vida apressada, não muda o olhar. Sempre vêm à tona. 

Retoma a ótica e em meio às reminiscências e é muito doido isso: uma anamnese, recordar algumas e outras que a gente queria mesmo era esquecer. Parte das histórias contadas por Conceição, com a riqueza dos detalhes e a destreza na escolha das palavras, sempre se misturam com a minha imaginação e cada conto, tem sempre alguma história que se relaciona com alguém da minha história de vida. 

Lembro-me do dia que mataram meu amigo, bom de futebol, que na minha volta da faculdade, presenciei o corpo agonizante, levou 3 tiros, um para cada pedra de crack que ficou devendo; do colega de sala que pela ausência de um local de lazer invadiu uma chácara e morreu afogado, do roubo da merenda escolar, das crianças com as barrigas grandes de vermes, da falta d’água e dos dias sem aula, em razão disso todos correndo no meio da rua. 

Volto ao ano de 1982, aos três anos, e hoje sei as razões de estar aqui. Não foi só porque o meu pai trocou meio lote na periferia de SP, por um lote, em Caieiras. Um bairro que para entrar e sair era necessário permissão. Um primo descobriu isso da pior maneira. Veio nos visitar e foi espancado por alguns adolescentes, quase morreu não fosse o Zé Preto usar a garrucha enferrujada. 

Ele estudava com a minha irmã, onze anos mais velha que eu, acho que gostava dela. O bar era também nossa casa, aliás, metade dele. Um quarto, uma cozinha, separada por madeirite e para aproveitar a altura do pé direito, se improvisa um quarto para o casal. Quatro filhos: dois meninos e duas meninas. 

Uma que na infância, nem era tratada como menina, assim diziam. Vivia na rua e joga bola feito macho... Nesse local sabíamos da vida das pessoas, um confessionário, em que se debruçavam sobre o balcão e contavam suas alegrias e tristezas. Choravam as misérias curtidas no copo da cachaça, a única que a moeda podia comprar. Ora riam, ora choravam. 

Vendíamos por quilo, não tínhamos lucro, porque partilhávamos das mesmas dificuldades dos que compravam e não nos pagavam. O meu bairro era o mais temido, era até difícil conseguir emprego, quando alguém dizia que era morador daqui. 

Um desses garotos que espancou meu primo, certa vez, veio assaltar o vendedor de ovos, eu tinha 5 anos (essa é uma das lembranças que desejaria esquecer). A primeira vez que vi um revólver, não parava de chorar e lembro-me do medo que a minha mãe teve, de que o moleque me acertasse uma bala na cara. 

_ Eu não vou mexer com a senhora, não, dona! Meu negócio é com ele. Passa essa grana aí!

Isso se repetiu algumas vezes com o caminhão do gás, da fruta. Até que o mataram, no triozinho. Que era um dos acessos ao Cemitério de Perus, local que ajudou financeiramente a minha e muitas famílias. A gente vendia vela, sorvete de saquinho, meus irmãos limpavam as sepulturas no dia de finados. 

Um local de muita tristeza, pela história, mas que era a alegria de muitos. Meus irmãos adoravam ver os indigentes serem enterrados, não sei qual a graça viam nisso, mas viam. 

Outro garoto foi o Alex, apareceu no lixão em Perus, viram quando o fusquinha o levou. Eles foram desaparecendo, dizem que um foi matando o outro. Não sei dizer, dos que restaram, viraram evangélicos. A segunda vez que vi um revólver foi numa briga de prestação de contas, por ser o local de confraternização, também era onde discutiam e tratavam as próximas. 

Pacha tomou um tiro na garganta, pedia água, enquanto o sangue jorrava longe, eu só ouvia não dá água para ele, se não morre. A polícia não vinha, colocaram-no na traseira do carro e foram direto para o hospital. Eu nunca mais vi, fiquei sabendo que viveu, mudou. O outro, que havia dado o tiro, morreu em Taipas. 

Se teve alguma relação, não sei. Meu pai nunca bebeu, mas tinha o vício dos jogos e o pouco que ganhávamos ele apostava. Numa dessas partidas de sinuca discutiu com um rapazinho, que prometeu mata-lo. Era cunhado do traficante e pela terceira vez vi um revólver. Achei que dessa vez eu ficaria sem meu pai. Não gostava de desaforos, sempre dizia as coisas na lata, meio fora de hora, talvez para mostrar o quanto era homem, enquanto estava na mira da bala gritava - mata, só se morre uma vez - nessa altura, eu com 8 anos já entendia muitas coisas, bati na perna do rapaz, que estava com arma em punho e disse não mata meu pai não, moço, por favor. 

Não sei se foi a minha intercessão, se por misericórdia mesmo, colocou a arma na cintura e foi embora. Voltou várias vezes para beber, morreu nas mãos de outro comerciante, que cansado de ser assaltado, pediu a execução. Meu pai morreu bem depois, de traumatismo craniano e hemorragia interna. Não cruzaram seus braços, porque o caminhão passou por cima duas vezes. O motorista, desatento ao retrovisor, pensou ser uma pedra. 

Como numa sina e com as contradições da vida, um vendedor de bebidas, que não bebia, morreu na hora e foi mais fácil dizer que estava bêbado, do que admitir que tivesse atropelado um pai de família. Coisas que não temos explicação, como naquele dia acompanhá-lo com olhar até que sumisse da minha visão. 

É a sua “neguinha", como dizia, chorou como nunca na vida e isso durou um bom tempo. Pedras sempre são uma grande metáfora na vida, sempre haverá alguma no meio do caminho, algumas que desejamos passar por cima, as que desejamos arremessar na vidraça alheia, pedras que usamos para nos cercar em nossos castelos, pedra-alicerce, marco histórico, pedra-lápide; pedra no cachimbo, pedra que colocamos em cima de muitos assuntos. 

Pedra que servia de travesseiro para N. moça preta, de uns 16 anos, pensava como criança, sempre tinha umas tantas outras para arremessar em nosso lombo ou em nossa cabeça, quando não dávamos o dinheiro do pão, ou o doce que comprávamos no caminho da escola. 

Amava doces, percebeu isso um senhor de uns 60 anos. A menina-mulher não costumava arremessar as pedras nele. Desabrochava nela os desejos, gostava dos afagos e também dos doces que ganhava. Não foram só guloseimas que deu a ela. Desapareceu depois que a barriga da moça começou a aparecer. Nem sinal dele, nem da criança, que chegou a nascer. 

Há muitos outros relatos de outras vidas periféricas. Digamos que o fazemos pelos laços, que apertados, com quem vive ou viveu as mesmas coisas. Acredito que a Conceição também faz isso, apesar de ser conhecida e renomada, é a “escrevivência”. As marcas estão para não esquecê-las. 

O inimigo é maior, não é só a mira da bala, é da fala, do olhar, do cerceamento, do encarceramento, do racismo, do machismo, do julgamento, das várias formas de violência diárias. 



Maria Madalena Scavassa, Professora periférica na Rede Estadual e Municipal de São Paulo, musicista popular. Mamãe apaixonada pelo Davi e pela Carol. "Uma aguerrida remanescente Xacriabá em busca das suas origens".





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