De Prosa & Arte | A benção e o traje branco

 


Coluna 14



foto @marcosnunes.fotos

A benção e o traje branco


Nunca entendi bem quando criança essa coisa de pedir a benção aos mais velhos/experientes. Como não era um hábito familiar, eu me incomodava quando ia a casa de minha avó paterna  e minha mãe dizia: _ Peça a benção.

Fiz algumas vezes a contragosto e por obediência. Achava que era uma prática religiosa arcaica na qual por algum motivo desconhecido eu nunca me encaixei. Quando adolescente, rebelde e respondona, minha mãe desistiu de me orientar sobre.


Senti que meu amor pelos mais velhos (os mais queridos, claro) transcendia esse hábito mecânico ao qual me obrigavam. Quando conheci a família do meu ex marido, outra vez me deparei com a prática de pedir a bênção. Via meus cunhados fazendo isso com os pais e tios. E embora não houvesse a mecânica que me incomodava, ainda não tinha sido movida a acreditar que pedir a benção podia surtir mais efeito do que dizer: _ Tchau vó… e olhar em agradecimento pra ela por me pentear os cabelos e fazer com que eu comesse antes de sair, pra não ter uma “bilôra” na rua.


Quando minha sobrinha cresceu e começou a falar, os pais a estimulavam a pedir a benção a todos os mais velhos. Ela ainda faz isso hoje aos 16 anos. E também me beija a mão. Acho fofo. Devolvo: _ Deus te abençoe. Lhe estendo a mão.


Confesso que ainda estranho a atitude. Não estimulei meus filhos a fazê-lo. Mas sinto o carinho deles por cada tio, avô ou avó. No abraço, no sorriso. Pedir a benção algumas vezes me parecia servidão. Obediência civil. Eu ainda sou rebelde ou fui. Não fazia.


Dentro do terreiro que escolhi para evoluir minha espiritualidade ouvi:

“Temos noção do peso que tem pedir a benção ao nosso Mestre/Pai de Santo?”


Vivemos a era do Boom digital. Encontros reais escassos. Memes pra simbolizar o que sentimos ou falsear o que pensamos. Os abraços duram em média 3 segundos. Deveriam durar no mínimo 20 segundos para estimular a oxitocina ou para haver uma troca verdadeira de conforto e segurança. Diálogos são travados através dos aplicativos. Avaliação da beleza e do caráter por fotografias cheias de filtro.


Filtramos as relações?

Amamos de verdade?

Exercitamos compaixão?

Ou palavras são escritas pra forjar algo que não somos?

Só posso falar por mim. Essa é uma visão unilateral portanto. Só um ponto de vista. Respeito os demais.


Todas as manhãs quando acordo por vezes ainda cansada, preocupada e visto a minha capa de problemas, antes de me vestir com minhas crises, invariavelmente esqueço de agradecer o simples fato de ainda estar respirando, podendo então tomar as rédeas do que ainda me aflige. Talvez mesmo antes de tomar café, ou desejar bom dia à própria família, eu me envolva em responder eventualmente as postagens de florezinhas e BOM DIAs, que vêm do externo. É triste! Mas é real. 


O quanto de tempo desprendemos falseando através de postagens o que realmente estamos sentindo naquele momento, naquele dia, naquele ano. Venho entendendo esse processo digital como um grande retrocesso na nossa capacidade de interação real com o mundo. Embora a tecnologia seja um avanço necessário ao tipo de comunicação que inventamos e que nos rouba sem pestanejar quase 12 horas de vida por dia.


As relações se tornaram líquidas, se encaixam nos leitos e represas do nosso inconsciente, ou se esvaziam e secam na nossa fugaz materialidade. Por isso, o número excessivo de divórcios, relações fraternas entre familiares desfeitas. Nossa individualidade grita mais que o senso coletivo. Que a percepção do outro. Que o encontro com o outro.  Valorizamos os conhecimentos e experiências que podemos apreender nesses encontros?

É possível mudar o outro?


Eu acredito que não, pois quem convive com  gente não é uma extensão de nós, é  outro mesmo, com vivências particulares, problemas específicos, enfim é só o outro. 


Nossa necessidade de moldar as pessoas com as quais nos relacionamos é tão maior do que abrir-se para o encontro com as nossas semelhanças e singularidades, que acabamos por nos perder.


Repito: posso dizer por mim. Apenas por mim. Que hoje pedir a Bênção pra quem tem a mão sobre Meu Ori é um ato verdadeiro, nada mecânico, com o peso e respeito que essa ação lhe cabe.


Para interiorizar fundamentos básicos da minha orientação religiosa foi preciso ouvir o que de alguma forma eu sabia: o filho/a é quem procura o pai, esta frase me fez acertar minhas convicções, porque a religião é um terreno irregular, que vai nos botar cara a cara com os nossos medos, dúvidas e fracassos. É possível que vez ou outra a gente se pergunte se está no lugar e hora certos. Lidar com o mistério ainda me envolve num certo ceticismo. No ver, pra crer. Porém, entendo que atuar em qualquer ordem religiosa deve nos mover a superação dessas dissonâncias. 


A hierarquia existe. Sem ela é provável que nos sintamos perdidos, pois não sabemos atuar no processo libertário, não sabemos lidar com a Liberdade, até quando nos é dada titubeamos queremos controle, infelizmente. A aceitação do sagrado deve nos colocar em consonância com a ordem natural das coisas, com o apreço e cuidado com os ensinamentos dos mais velhos ou mais experientes e a manutenção dialógica das tradições. Cada uma das posições que a gente ocupa na caminhada religiosa tem sua importância e valor. Desprender-se dessa importância dos cargos/ lugares/ status é  fundamental, pois não se ergue um prédio sem a sua fundação. O que sustenta o prédio não fica aparente, mas é  tão importante quanto a sua arquitetura.


O respeito é a base da religião, bem como, de todas as relações travadas vida a fora, se considerarmos que cada uma das pessoas está num diferente degrau da aprendizagem, parece injusto fazer julgamentos a partir do nosso ponto de vista. Manter uma visão unilateral, egocêntrica e inquisidora para com as outras pessoas com as quais nos relacionamos, nos impede de evoluir na nossa capacidade criativa e geradora. Nos imobiliza, afinal ninguém sabe de tudo. Estamos todos em grau de aprendizes. Alguns com mais, outros com menos predisposição.


Humildade não é, nem pode ser humilhação. De todas as máximas, talvez essa seja a que mais me tirou do lugar. A que me fez reconduzir meu raciocínio lógico sobre o religare. Em muitas circunstâncias para além da religião, manter essa postura ao servir beirou a humilhação, porque o outro sobrepujou nossas capacidades, por nos mostrarmos à dispostos em servir com humildade e gratidão. Então, como entender que a humildade não passa pela humilhação? 


Quando fustigados, inferiorizados, por manter uma postura de servir, o mal não habita em nós, a maneira como o outro recebe nossas intenções, é pertinente à vivência dele e isso não pode nos envenenar. Em toda caminhada evolutiva encontraremos a prática do bem, e em sua contraparte relações que podem assemelhar-se ao mau caratismo. É preciso cabeça firme pra separar o joio do trigo. O servir é prática de desapego da vaidade, não nos faz “humilhados”, nos mantém a nobreza de caráter e espírito.


Tradição não se muda, talvez adapte-se aos novos tempos, mas mantém seus fundamentos e alicerces. Rebeldia e contrariedade individuais, não vão alterar os princípios que regem as Leis, só vão impelir sofrimento e esforço desnecessário ao sujeito contrariado. Por isso, antes de entrar pra qualquer que seja a ordem religiosa avalie se está disposto a servir com gentileza, respeitar a doutrina e tradição,  servir sem esperar contrapartida. Evoluir para o engrandecimento espiritual, físico, mental e material e não para a manutenção do seu ego.


Eu tento seguir nessa busca, em tempos contraditórios como os de hoje onde a disciplina religiosa me falta, onde me sinto demasiadamente preocupada e com medo. Busco na força do Axé, caminhos possíveis para a superação de possíveis fracassos pessoais, buscando encontrar o lado positivo de todo dissabor que o futuro pode me trazer como aprendizado. Me sinto feliz em trajar branco, pois me fez crescer em reflexão.


Quem pede a bênção também abençoa. Que alegria poder trocar esse mimo com quem me abençoa a caminhada. Não é servidão. Nem subserviência. É afeto. É fé. É esperança.


Hoje eu sei o quão importante pedir a bênção se tornou pra mim. O quanto eu me sinto realmente abençoada na vida, por quem caminha lado a lado e por quem já passou por mim. Ao estender a mão pra minha sobrinha que me pede a benção, desde as primeiras palavras a ação tem outro significado. Quem sabe também pra ela. Eu a abençoo e sou abençoada pela minha pretinha. Eu abençoo e sou abençoada por irmão e amigos. Daí sorrimos, por dentro e por fora. 



Fotógrafo  @marcosnunes.fotos






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