Crônica | Momentos que somam e dividem, por Chris Herrmann





Momentos que somam e dividem
por Chris Herrmann

 
É incrível como há momentos na vida da gente que, ao mesmo tempo que nos somam e dão muita satisfação, podem nos dividir interiormente. 

Foi o que aconteceu comigo na virada de 2017 para 2018 e também três meses depois. Tive uma fase bem difícil e delicada por conta de um tratamento de câncer de mama. Antes do terrível diagnóstico, eu estava toda feliz, planejando o término do meu primeiro romance e uma possível viagem ao Brasil para lançá-lo em três cidades.
 
Apesar do susto do diagnóstico e as dificuldades enfrentadas no tratamento da doença, posso até dizer que me saí bem. Procurei unir forças para não me deixar deprimir, nem fazer com que a doença me vencesse. Não. Eu a venci com o apoio do avanço da ciência e da medicina, mesmo sabendo que isto só foi possível por conta de um diagnóstico prematuro em um exame de rotina.

Mais aliviada, porém um tanto debilitada com as várias sessões de radioterapia, decidi aceitar o convite e viajar da cidade onde moro aqui na Alemanha, Duisburgo, para Augsburgo. Lá aconteceria o lançamento da primeira coletânea internacional e bilíngue do Mulherio das Letras. Fiquei bem cansada com a viagem de carro que durou cerca de seis horas, mas estava feliz de poder encontrar brasileiras desse movimento, que nasceu para ser agregador. 

O evento Mulheres Pela Paz Frauen für Frieden, organizado pela brasileira residente na Alemanha - Alexandra Magalhães Zeiner,  do Dia Internacional da Mulher em (8 de Março de 2018) e os encontros que tivemos foram belíssimos. Pude conhecer pessoalmente algumas brasileiras do Mulherio. Foi uma festa. Parecíamos crianças ganhando doces. E aqueles momentos foram doces mesmo. Tanto que me fizeram até esquecer um pouco o meu cansaço e meu corpo ainda debilitado por conta da recente cirurgia e as várias sessões de radioterapia que estava fazendo.

Como parte da programação dos eventos, estava a ida ao Consulado Geral do Brasil em Munique para uma audiência com a Embaixadora e a presença do Vice-Cônsul. Meu marido que me acompanhou em tudo, teve sua presença aceita na reunião como fotógrafo (risos). Ele gostou dessa denominação, embora não seja fotógrafo. Aquela reunião foi muito interessante. Cada uma de nós se apresentou, falou de si, de seus projetos voltados para a literatura e cultura e muito se falou sobre o (ainda novo na época) movimento Mulherio das Letras  no Brasil. Enquanto isso, tomamos cafezinho brasileiro e comemos biscoitinhos deliciosos, posamos para fotos com exemplares da antologia e outros nossos. Enfim, foi um encontro memorável.


Na despedida, o Vice-Cônsul quis falar comigo e me fez uma proposta que me deixou bastante surpresa. Mais uma vez, senti o que vinha sentindo desde o ano de 2017; os tais momentos de soma e divisão interiores. Ele queria me contratar para trabalhar na integração de brasileiros, que em sua maioria eram mulheres recém chegadas em Munique.
 
O que ele não tinha registrado, ou eu mesma posso ter esquecido de dizer na reunião, é que eu não morava em Munique, mas em Duisburgo, que fica a uma distância de mais de 600 km dali. Ainda assim, ele insistiu, disse que percebeu por tudo que foi conversado, que eu seria a pessoa certa para esse trabalho de integração social e cultural. Achou perfeito o fato de eu já viver na Alemanha desde 1996, com uma boa experiência no âmbito cultural e social. O fato de eu também ser musicoterapeuta parece ter sido ainda mais decisivo para a sua conclusão.

Eu não sabia bem o que pensar e o que dizer, mas tive que ser sincera. Embora aquela oferta de trabalho tivesse me encantado, eu não tinha como dizer sim. Ele insistiu que eu pensasse e conversasse com meu marido. Deixou o seu cartão e disse que eu entrasse em contato por telefone ou e-mail, como eu quisesse, e que ele iria torcer que a resposta fosse positiva. Disse que eu não me arrependeria com o salário, já que seria um trabalho importante para a comunidade. Disse também que eu teria sinal verde para organizar e até formar grupos de trabalho para me ajudar. Eu seria a coordenadora e poderia fazer eventos e palestras, etc.

Lembro que voltei para a minha cidade bastante pensativa. Estava feliz com os eventos e encontros e completamente confusa, porque não tinha como aceitar um trabalho que, a princípio, poderia ser apaixonante e me realizar profundamente. E não seria por receber um bom salário. Penso que se eu morasse em Munique, faria até sem salário. Voluntário, como tem sido a maior parte do meu ativismo cultural nesses 25 anos que vivo na Alemanha.

Ainda hoje me lembro de ter ficado triste em ter dado uma resposta negativa. Era um problema sem solução. Eu não tinha como me mudar para Munique e abandonar a vida na minha cidade e o meu casamento. A não ser que nos mudássemos para Munique, mas não me parecia sensato que eu pedisse para o meu marido abdicar do trabalho sólido de anos que ele tinha para me acompanhar. Não digo isso porque o trabalho dele fosse mais importante por ele ser homem, mas ele ainda estava terminando de pagar o financiamento da casa onde moramos. Uma casa que ele terminou de construir praticamente com as próprias mãos e gostamos de viver aqui.

Enfim, tento pensar que talvez não era para ser, mas confesso que aquilo me deixou bastante balançada e dividida por dentro. Nunca tive medo de desafios. Ao contrário, foram eles que sempre me co-moveram. Sempre tive em mente que a vida é uma só e que não devemos deixar de fazer aquilo que nos apaixona. Quando há desafios, há riscos. Mas eu não tenho mais 20-30 anos. Fosse em outra época, solteira e sem filhos, teria jogado minha mochila nas costas e embarcava nessa nova aventura. Quando se cria laços de família, há mais de um sonho e um sentimento em jogo.
 
Conversei muito com o meu marido e ele até me surpreendeu dizendo que compreendia muito bem o que eu estava sentindo. E que também acataria a minha decisão, caso eu mudasse de ideia e resolvesse voltar atrás e me mudar para lá, nem que fosse para experimentar por algum tempo. Disse também que se estivesse no meu lugar, muito provavelmente, estaria na mesma situação dividida que eu. Temos nossos problemas como todo casal, mas tenho que reconhecer que ele foi maravilhoso comigo naquela situação. O que foi bom, pois já bastava o peso e a pressão das minhas dúvidas.
 
Fiquei meses remoendo perguntas do tipo: e se eu fosse mesmo para lá primeiro trabalhar durante uns três meses para ver como seria? E com isso, vinham outras perguntas: e se eu gostasse tanto que não quisesse mais voltar e isso destruísse o meu casamento? Seria o gosto por aquele trabalho que eu ainda nem tinha feito e apenas sonhava, mais importante do que o meu casamento e a vida que eu construíra até agora em Duisburgo? E a autocrítica balançava entre o sentimento de me sentir medrosa demais e aventureira demais. Também pensei nos meus filhos que moram aqui perto com o pai. Não seria justo com eles.
 
Todas aquelas e outras perguntas que invadiram a minha mente, ficaram sem respostas. E depois da tortura interna daquela fragmentação, foram levadas embora pelas águas de março do tempo em algum lugar de mim.





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