Poemas de Adri Aleixo, ilustrados pela arte de Neuza Ladeira




3004

Enquanto estou no ônibus 
posso extrair os fios brancos da sobrancelha
Olhar de um lado
a rua
Do outro 
o Arrudas
Entre as pernas 
seu postal da Florence 

O campo de lavandas
Ontem vi uma foto sua no México ensinando crianças 
Outra na África empunhando bandeiras 
Sua mochila 
O all Star
e só
Eu nunca viajo
não tenho dinheiro 
não tenho coragem
Aprendi que de uma aldeia é possível ver o mundo 
E desde então faço associações
amanditas em vez de nozes
multidão em vez de mundo
resistir ao invés de residir
Talvez o cheiro dos meus incensos valha o perfume dos campos de Valensole
Não costumo viajar
mas hoje resolvi levar seu postal para passear entre as pernas.





Matrioskas

Acredite
se os vissem na rua correndo tranquilos
em volta a lagoa da Pampulha
não imaginariam que em casa foram guardando as coisas
umas dentro das outras
estocaram álcool, papel, comida
e todo dia estão a correr, pois sabem que quando tudo acabar
ainda terão o fígado, o coração e o rim
uns dos outros.


Carpa

Vê?
Eu não sei dizer
a pressa
sei do embalo
da pressa

mas é devagar que escrevo
n u v e m


O pintassilgo

Eu, tão mineira querendo falar sobre o mar
o mar e a ideia do eterno retorno
dia desses me perguntaram se lá em casa havia quintal
-minha mãe criava porcos
meu pai plantava cana, eu disse
mas esse fato também não é a garantia de uma boa história.
Há uma forma indefinida pela qual passamos a pertencer a algo
assim como pertencemos a certas histórias só de ouvir contar.
A caçula chegou em casa e soube que o mais velho havia ganho um prêmio de redação
O título. O pintassilgo.
Ela mal conhecia os pássaros e de repente ouvia sobre voar no pintassilgo
essa ave que canta e dança a rodear o dia
algo como pintar o céu com suas asas e assim
pertencer ao céu de alguém
estar livre e voltar a casa
ao ninho
como agora o espevitado pássaro fizera ali
no meio da sala.

As coisas aparecem sem a perspectiva de sua fugacidade
algumas, retornam


O gato de Orides

Desliza na languidez do movimento
esgueira-se sucinto
entre susto e forma
É todo enigma

Entre orelhas e bigodes
protagoniza a descarnada
palavra
É todo referente

Descamba o dentro e o fora
o para sempre filosófico
o estranho céu dentro de si
Ei-lo novamente rarefeito.

**
Ilustrações da poeta e artista plástica, Neuza Ladeira



Adri Aleixo publicou Des.caminhos (2014) e Pés (2016), ambos pela editora Patuá. Em 2019 publicou Das muitas formas de dizer o tempo, com imagens de Lori Figueiró, pela editora Ramalhete. É professora de Linguagens e mestranda em Literatura Brasileira pelo CEFET-MG.


Comentários

  1. "Aprendi que de uma aldeia é possível ver o mundo", a partir desse verso já me encantei e vi o mundo, o mundo poético de Adri Aleixo, a quem tanto admiro. Acompanhando as palavras da bela poeta mineira, surgem os traços personalíssimos de Neuza Ladeira. Parabéns à Revista por proporcionar o encontro entre as duas artistas!

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  2. Sou fã das duas! Talento e simpatia em dose dupla. 🤍

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