Poesia Alemã e Indígena - uni verso de mulheres - 03



Três Poemas de Márcia Wayna Kambeba, por Valeska Brinkmann

Foto Márcia W. Kambeba

Amazonidas

Somos filhas das ribanceiras
Netas de velhas benzedeiras
Deusas da mata molhada
Temos no urucum a pele encarnada
Lavando roupas no rio, lavadeiras
No corpo um gingado de carimbozeiras
Temos a força da onça pintada
Lutamos pela aldeia amada
Mas viver na cidade não tira de nós o direito se ser nação
Ter ancestralidade, sabedoria, cultura
Somos filhas de Nhanderú, Senerú, Nhandecy
O Brasil começou bem aqui ou será que foi ali
Não nos sentimos aculturadas
Temos a memória acesa
E vivemos a certeza de que nossa aldeia 
Resistirá ao preconceito do invasor
Somos a voz que ecoa Resistência?
Somos, sim senhor!


Guerreiras

Nas penas que trago no cocar
Nas contas que contam minha história
No espírito que carrega a memória
Na cara ou na fala sou senhora
Senhora dos tempos 
Herdeira das caminhadas
Das Amazonas guerreiras
Das flechas envenenadas
Que mancharam o Solimões
Defesa e resistência
Tenho fé e paciência
Para lutar por mais milênios
De camisa ou calça jeans
Cabelo liso ou enrolado
Quando olho no espelho
Vejo as rugas meu passado
Quero contar o meu tempo
Nos braços da sapopema
Esperando minha hora.
  

Invadidos

Começou com a chegada
Dos homens e da espada
Não falavam a mesma língua
Era difícil a comunicação
O líder das nações
Fez o povo remar
Levar mantimentos às embarcações
Que atracavam vindas do Além -Mar
Começou uma negociação
Conversa com gesticulação
O líder não deixou o branco entrar
Ficaram da praia falando
E o branco no barco querendo atacar
De um lado a flecha para intimidar
Do outro a carabina apontada para matar
A cruz e a espada num único fim 
Invadidos, os invasores atiraram em mim
E o povo desviava da bala da intolerância
Da bala do preconceito e ganância
E desceram em solo indígena
Rezaram a missa da demarcação
Capitalismo e religião unidos
E a cruz dizia: Já é da coroa Portuguesa esse chão
Foi na bala e na covardia
Era uma aflição, ninguém dormia
Com uma violência desmedida
E ainda hoje a dor é sentida
No pulsar de cada nação
Na forma como morreram os ancestrais
Em defesa do território, sem direito a velório
Abandonados, queimados nos destroços
De habitante do lugar hoje é invasor
De um território que já foi seu
A violência do opressor
É achar que a cultura morreu
E que os povos estão dizimados
E não devem lutar pelo que é seu. 
Invasão não! Lutamos por demarcação
Ao menos um pedaço de chão
Que possamos cuidar, amar sem destruição.




Márcia Wayna Kambeba,  indígena da etnia Omágua-Kambeba, mestra em Geografia,  pesquisa sobre o povo indígena envolvendo território e identidade num processo de ressignificação da etnia. Escreve poemas relacionados à vivência, ao território e identidade do povo Omágua-Kambeba, questões ambientais e de povos indígenas em geral,  sempre envolvendo a Geografia. Também é cantora, compositora, fotógrafa, professora e palestrante de assuntos indígenas e ambientais. Autora do livro de poemas Ay kakyri Tama - Eu moro na cidade (Pólen Livros) sobre assuntos voltados para indígenas que vivem na cidade e lutam por respeito e afirmação junto aos que vivem nas aldeias.

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