Resenha do livro de contos O VERSO DO REVERSO, de SANDRA GODINHO






NO REVERSO DA REALIDADE HÁ SEMPRE UM VERSO INSISTINDO NA RESISTÊNCIA PELA VIDA

por Nic Cardeal 

O livro O VERSO DO REVERSO (Guaratinguetá/SP: Penalux, 2019), de SANDRA GODINHO, reúne uma coletânea de 32 contos. Quando comecei a leitura, fiquei logo intrigada. Já inquieta, queria saber o motivo do título. Ao final, penso que compreendi. Reverso é aquilo "que está ou parece estar em posição oposta à normalidade; que retornou ao ponto de partida". Nesse contexto, vejo o texto de Sandra como uma costura única, toda atravessada em reversos, no avesso da aparente normalidade da vida, onde a linha que os tece - em uma única estrada que conduz ao coração, às dores do coração, às percepções mais profundas (e antagônicas) do coração - é a aquela dos sentidos mais originários da nossa humanidade (ou falta dela!). A autora parece fisgar, com o anzol das palavras, nossos mais escondidos sentimentos de fragilidade, colocando à flor da pele todas as dores possíveis, resultantes da nossa condição efêmera de viventes (e sobreviventes) no mundo.

Em suas tramas, a autora ora parece usar um telescópio, para alcançar grandes distâncias que separam as gentes; ora, um microscópio, que atinge fundo, dentro, no mais profundo 'mínimo' de cada ser vivente; ou n'outra ainda, parece espiar por um caleidoscópio, enxergando a alterada imagem de aparente sutileza, nos cotidianos das suas personagens expostas à vida, nua e cruamente. Não por acaso que essa magnífica obra lhe rendeu o ‘Prêmio Manaus 2019 de Melhor Livro de Contos’.

Tudo aqui é memória de dor, perplexidade, mergulho, trazendo à tona a fragilidade humana, ainda que em carne viva, ferida aberta, sangue escorrendo sedento de vida pelas veias. Humana resistência, atordoada resistência, sempre presente. Em ‘Vamos brincar?’, o conto que dá início ao livro, a autora descreve o abuso do pai a uma filha de 13 anos, no fiel retrato da realidade que se estampa diariamente diante dos nossos olhos (quase 90% dos abusadores de crianças estão dentro da própria casa!). Até que a menina faz seu próprio acerto de contas. “(...) Não tenho nada a temer, nem presente depois do estupro, nenhuma Barbie vale a violação. Dos sentidos, pior que a do corpo. Das falas abortadas, das vontades recolhidas, da violência que nunca parece bastar. Vou alegar defesa. Legítima. Legível (...)” ('Vamos brincar?', pág. 12).

No livro de Sandra é possível mergulhar de cabeça na natureza mais intrínseca da vida, da morte, do espaço/tempo intermediário entre a vida (humana ou desumana) e o morrer de muito (ou pouco) viver. No muito da vida do homem de 85 anos que vê escapando o filho morto, a esposa perdida da memória, que se vê escapando pela alma (‘Quando escapou’, pág. 19). No pouco da vida que parece querer acabar, quando a mulher descobre o ‘alienígena’ a lhe habitar por dentro, e diz de um só fôlego (porque somente de um só fôlego é possível dizer das dores de si): “(...) e a célula se reproduz e se desenvolve alienígena e só é um corpo estranho no meu corpo de sangue e carne e é um corpo estranho no meu corpo santo estreitado de vida que agora está alienado e aliciado para gerar outras células e dar alicerce a um ser que eu ainda não sei o que é e nem quem é e o que vai ser porque eu ainda não sei ou sei que aqui dentro é feito uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento e destruir o meu cosmos e o meu tempo e espaço (...)” (‘Bomba alienígena’, págs. 21/22). No mínimo da vida que não deu chance à compreensão do outro, na ‘insanidade nossa de cada dia’ (págs. 24/31); no resquício de vida que se dissolve em chamas, ‘conforme o desconforme’ da vida roubada sem pudor nem piedade, porque ele apenas “(...) era mais um no mar de tantos (...)” (pág. 35).

Sandra costura ‘uma peça em pequenos atos’ (págs. 36/41), remenda os sentidos remanescentes da vida numa imensa peça onde os atores são minuciosamente restaurados das tragédias cotidianas, dos insanos atos sobreviventes das recentes circunstâncias ainda latejantes de vida, no tempo que nem se despediu desse agora que já se demora... E as costuras são desfeitas, são refeitas, é preciso que sejam forçadas a resistir, porque viver é esse respiro contínuo até que o ar se acabe e surja a escada, os degraus ao nada. A subida, é preciso acreditar na subida, nos mundos de cima, porque embaixo não há mais espaço e nem esperança no existir. Porque depois d‘as três ondas’, quando a gente pensa que ‘isso’ tudo se acaba, que a maldade se acaba, a gente ainda se engana, porque “(...) a gente encontra afago de onde nunca se espera. E maldade também” (pág. 46).

Então eu pergunto: – Não há jeito, não há saída, não há o estancar dessa imensa ferida humana, que sangra, costura, cicatriza, mas outra, e outra, e outra vez se rompe, e se deságua em águas, e sangue, e dor, e tudo outra vez? Quando será a próxima vez, com quem será a próxima vez? Estaremos nós fadados ao eterno ‘desencontro’, quando sonhamos que “(...) amar é ação, é o que me invade a medula e me torna visceral (...)”? (pág. 49). Ou será que as injustiças sociais desse mundo serão sempre a pior chaga a maltratar o corpo, a pele, as vísceras, até o arrancar da alma, na metamorfose urgente e necessária, como um menino errante dos caminhos, “fantasma em camuflagem”, mágico cotidiano a transformar, a duras penas, a duras pedras, o instante do existir em respiros contidos, em insignificantes respiros, até o errôneo ‘milagre’ de enxergar a crua cara da realidade? (‘A metamorfose de Murilo, o mágico’, págs. 54/59). Sandra parece vislumbrar a resposta. Em cada conto outra chance de resposta, milhares de chances de mais perguntas – sem respostas – num processo constante de busca, como se nossa capacidade de sobrevivência aos desvarios capitalistas seja nossa única esperança num novo tempo de nos fazermos outros, modificados, recuperados do assombro do existir...

A autora segue sua sina, a sina dos literatos, dos poetas, dos escreventes, retratando em verbos sobre os reveses, as maldades, o abandono, a solidão, a violência, temas presentes não apenas nas grandes cidades, mas em todos os cantos dos mundos feitos de homens, porque “(...) ninguém é inocente quando o sangue de um justo é derramado (...)” (‘Sapo de jardim’, pág. 62). Porque, desde o seco sertão até a dura cidade de pedra, seca e ensolarada, toda ‘caçada’ será sempre necessária, para que se aprenda, outra e outra vez, que “(...) nem todo bicho tem pra onde fugir” (pág. 74).

Afinal, de quantas distâncias será feito o trajeto ‘entre o ser e o sonhar’ humano? Haverá um tempo e lugar onde se permita um viver feminino sem medos, receios, pânico, onde à mulher seja estendido o direito à vida, à dignidade da vida, à liberdade da vida? “(...) Pobre Maria. Não sabe que os sonhos são tirados com violência? (...)” (pág. 78). Haverá um tempo e lugar onde à criança seja dado o direito de viver sem correr riscos, sem os assédios masculinos, estupros, quando aos homens parece espetáculo “um anjo violado”? (‘Vergonha’, págs. 90/94); ou quando às meninas é imposta a mudez, sem direito ao grito, à fuga, “carregando um temor pesado demais para suportar”? (‘O homem e o saco’, pág. 192).

De quantas distâncias serão erguidos os muros do desespero, quando o homem resulta em fuga, covardia e escape, procurando o caminho de casa, ansiando a volta que não chega, o momento do aconchego do filho que ainda não veio, mas que está prestes a nascer, o ‘acalanto’ da amada embarrigada da espera anunciada, espantando as lembranças “(...) do horror que assola nossa existência, esse sofrimento que a gente vai suportando, suportando até se esgarçar como se fosse uma corda feita de fibras que nada suportam (...)” (pág. 87), e que um dia arrebenta?...

Na palavra de Sandra todas as dores do mundo são palavras possíveis, urgentes e necessárias de serem ditas, é preciso que se diga para que se ouça, para que se repita, e que se aprenda. Como no conto ‘o mistério das mariposas’: “(...) Um fardo a carregar para suportar o que nos é imposto. E nos esparramamos em choro e sufoco, como um pulmão a expelir o que nos aflige, soltando de tudo um pouco, sofrimento, emoção e desejo (...)” (pág. 114). Ou na resistência que um dia também se desmancha quando a justiça é cega, surda e (i)mu(n)da (‘Os três porquinhos’, págs. 124/129). Também as dores de mãe antiga, ‘nó de rendeira’ que vai rendendo os fios à tecitura do caminho-de-mesa, do caminho da vida, dos percalços e lembranças murchas cavadas na pele cansada da existência, quando a vida, ela mesma, está por um fio: “(...) – Mães são sempre cobradas, por isso se entendem. Entendem os sinais e a linguagem dos filhos. Se desejo a luz branca ao fim de tudo, devo continuar (...)” (pág. 140). Sim, as dores da cada mãe, desde o nascer de outra vida, “(...) uma novidade, o primeiro filho, o primeiro sopro, o primeiro sono (...)” (‘Nana nenê’, pág. 145); depois o crescimento, o amadurecimento, o equilíbrio do fruto, o envelhecer da árvore distante do fruto, até que resta o álbum de família sobre a mesa de cabeceira, e é preciso aprender a dizer adeus. Porque todas as mortes precisam ser ditas por Sandra no ‘Verso do reverso’, mesmo que sejam partidas feitas depois de longas vidas, desgastadas na aridez constante dos dias, as partidas dos homens matutos, ribeirinhos ou caboclos, porque “(...) o que vale nessa dita vida andada era a morte. E o jeito de morrer” (‘O cemitério que não existia’, pág. 163). Ou partidas repentinas em prédios desabados, corpos em escombros, onde “(...) ninguém faz questão de enxergar o que todo mundo vê. Fingem que não vêem a miséria e o medo. É menosprezo a céu escancarado. Despejos de vidas que se tornaram invisíveis em algum ponto da jornada (...)” (‘Elos em olhos que nada veem’, pág. 181).

Então, ‘se for para partir’, que não seja em vão a vida, que haja algum prolongamento da vida, que nascer seja como um fio que se estende ao menos em um tanto de ternura, que não seja de humilhação a vida, “(...) para irromper no mundo como ato de resistência (...) esse pequeno ato de resistência que nasceu no dia de se celebrar os direitos. Humanos? (...)” (págs. 214 e 215). E que ‘o jogo’ - da vida - tampouco não seja em vão (págs. 216/225)! Bem por isso - não creio que por acaso - os contos de Sandra são todos eles permeados por versos, que os costuram uns aos outros, na condição de "se for para partir"..., pois que, na oposição de cada uma das vidas, habita, incógnita e misteriosa, uma morte à espreita de todo efêmero existir...

Recomendo muitíssimo a leitura dessa incrível obra, porque no 'reverso' da vida sempre é possível germinar o 'verso' da palavra, tão urgente e necessária à compreensão do 'humano' em nós!


SANDRA GODINHO, nascida a 27/07/1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas de contos, sendo agraciada com alguns prêmios, como o primeiro lugar no prêmio VIP de literatura de 2018 de A. R. Publisher Editora, com o conto “Jogo de Damas”, e o segundo lugar no Concurso Literário Internacional Palavradeiros 2018, com “O massacre”. Publicou O Poder da Fé (2016); Olho a Olho com a Medusa (2017). Orelha Lavada, Infância Roubada foi o único livro de contos finalista na Maratona Literária (2018) do Carreira Literária, agraciado com Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), e semifinalista do Prêmio Guarulhos de Literatura (Escritor do ano 2019). O Verso do Reverso (2019) ganhou o Prêmio de Melhor Conto Regional da Cidade de Manaus de 2019. Segredos e Mentiras (inédito) foi finalista no Prêmio Uirapuru 2019. Terra da Promissão foi publicado (2019), e o romance As Três Faces da Sombra foi um dos ganhadores do concurso da Editora Fora da Caixa (2020).


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