Meus anos de hikikomori – Marilia Kubota



MOSAICO Coluna 03   Crônica

Meus anos de hikikomori 
por Marília Kubota

Nos anos 2000,  o psicólogo Tamaki Saitô criou o termo hikikomori. A palavra japonesa designa a pessoa, em geral jovem do sexo masculino, que fica isolada em casa, com apetrechos eletrônicos.  O fenômeno começou a ser observado com a popularização de computadores pessoais e celulares. No Japão, hikikomori são um problema de saúde pública. Com o isolamento social compulsório da pandemia , lembrei. Também tive minha  época de hikikomori.

Durante três anos morei numa chácara, em bairro nos limites de Curitiba. Vendi  um apartamento no centro da cidade. Era uma fase de instabilidade emocional, motivada pela depressão. Não me entusiasmei a comprar um novo imóvel. Uma amiga médica ofereceu abrigo.

A nova casa era o paraíso. Tinha  bosque, pomar, horta e  animais domésticos. Cachorros, gatos e coelhos conviviam com um cavalo, carneiros e pavões. De noite, grilos, sapos e corujas cantavam,  à luz de um céu estrelado, fenômeno raro na capital paranaense. 

Nos primeiros dias eu ficava deitada, sem pensar em nada. Já havia internet. Morava no campo, mas estava conectada com o mundo. Eu me relacionava com  blogueiros e vários grupos de poesia virtuais.

Ganhei dois filhotes de gato de uma vizinha. Nuitella e Mimi viviam em estado de alerta. Manolo, um labrador, era o dono do pedaço. Quando o avistavam, subiam  no telhado ou no limoeiro. Depois de alguns meses de convalescença, consegui sair da cama. Saía para passear com as gatinhas no bosque. 


Kristiane Foltran

Aprendi sobre a vida rural.  Em janeiro colhíamos uva. Em fevereiro, peras. No fim de abril,  pinhões. Em maio, figos. Em outubro, ameixas. Em dezembro, a colheita era de pêssegos. Quando ia pegar alfaces, couve, cenoura, feijão e milho na horta, o jardineiro contava a vida dele na colônia italiana de Lamenha Pequena.

Ir e voltar para o centro era uma aventura. Dez quilômetros na ida, dez na volta, num ônibus quase vazio. Um dia, cansei. A vocação para  morar no paraíso era zero à esquerda. Não tinha mais vida social.  Cinemas, teatros,  museus ? Nem pensar. Consegui um trabalho numa assessoria de imprensa. Foi a gota d`água . As viagens diárias eram um desgaste.

Comecei a pesquisar apartamentos para mudar. Encontrei um, ao lado de um shopping.  Uma das gatinhas, com cinco filhotes, veio comigo. A outra foi morar com minha mãe. No ano da mudança,  conheci aquele que seria meu companheiro por sete anos.

Antes de morar no campo, eu não suportava barulho. Lá, meditei sobre o silêncio. O silêncio que amava acima tudo. Não poderia continuar cúmplice de eternos espaços infinitos. O companheiro adorava conversar. A gata e os filhotes subiam em sua cabeça calva como se escalassem um limoeiro. Eu ficava feliz por voltar a ouvir motores e escapamentos de carros. 

Nunca mais cultuei o silêncio como antes. Convivendo com meu falastrão, fui esquecendo a face hikikomori.

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