Um Conto inspirado em canção de Raul Seixas - por Rita Santana


Imagem pinterest


 Ondas, Trânsitos e Trilhos
por Rita Santana
Já é noite. Há uma brisa entrando pela varanda do nosso quarto e a lua surge entre árvores altas com galhos secos. É uma noite iluminada, fresca e será a última noite em que estaremos juntos aqui em casa. Chego muito cansada do trabalho e encontro você calado, quase não me cumprimenta e sai para algum lugar. Mal olha pra minha cara. Está triste e seco também. Quando você está assim, a pele desidrata e você fica feio, o cabelo perde o brilho. Vivi alguns anos desse seu estado e sei ler a sua pele, a secura da sua boca, os seus olhos. Hoje, após tanto tempo, lembrei do cheiro de pó-compacto que, de vez em quando, identificava em seu rosto. Aquilo me irritava profundamente. Quando você está feliz, tudo muda e se torna o homem mais lindo e radiante do mundo inteiro. Volta logo. Ouço o barulho do carro, do portão, da chave destrancando a porta. Ouço o meu amor agonizando e o latido dos seus cães mortos. Ouço ainda nossas dores juntas em algum poço escuro, impotentes diante do fim. Pode imaginar o que sinto? Culpa? Rancor? Tomo um banho pedindo a deus que leve, com aquela água, todo o peso que me acompanha; que carregue toda essa dor. O ritual do banho e todas as abluções configuram rituais de purificação e preces para que eu tenha força e escape da morte, escape da dor.
Ponho a mesa, como sempre. Vivo esse teatro, como se não estivéssemos nos separando, mas todas as cartas estão absolutamente postas à mesa. Estamos mudos, enquanto a TV, na sala, dá as notícias do dia. Eu pego em suas mãos grandes e memoráveis e as acaricio com jeito de despedida e com amor imensurável. Você ri triste. Comemos. Trocamos algumas palavras sobre qualquer coisa vaga. Olho a nossa cozinha, a janela, os vidros, os frascos de tempero e o suporte que você desenhou de acordo com o meu desejo. Olho você indo para o quarto. E eu vou para a mesa trabalhar um pouco, responder algum e-mail, acessar o facebook, olhar o vazio, namorar o nada, enfim, evado-me.  Já não há espaço para tentativas de causar alegria com algum comentário engraçado ou com saídas de afeto. Sequer tenho coragem de falar alguma coisa mais séria. Mergulho num mundo onde você não existe, não penetra. No nosso quarto, sentado na cama, você também imerge em seu universo particular, no seu balão mágico, onde voar sem mim é o antídoto. A calculadora está sempre por perto, além de réguas e livros velhos que você insiste em deixar sobre a nossa cama. Sinto vontade de sacudir o lençol com você, livros, poeira e tudo pela janela. Em suas mãos, o Tratado de Fitogeografia do Brasil, de Carlos Toledo Rizzini, sua bíblia nos últimos tempos. Antes, eu me preocupava com as energias e espalhava alfazema e bons pensamentos sobre a colcha, acendia incensos. Colocava o meu cd de ave-marias e mentalizava coisas boas pela casa inteira, às 18:00 horas. Rezar me ajudou a ser forte e me preparar para a saída.
Às vezes, até tento algum diálogo, mas o seu olhar é de um desconhecido. Há uma frieza e uma afetação de ira contida que sinto receio de continuar insistindo, então resolvo fazer coisas práticas ou coisas do meu desvario. Há escuridão em seus olhos e uma opacidade que temo. Desisti de nós dois! Joguei a toalha, o tapete e toda a minha resistência. Tentei muito e agora sobrevivo. Encarar que o amor acaba, que as relações acabam e que a eternidade ou a felicidade, a dois, só é possível para poucos. Olho a árvore que plantamos e que já é uma moça.
Não havia mais negociação possível. Desejávamos coisas completamente opostas. Eu desejava. Ele assumia a sua natureza, o que era a sua vida e isso também é desejo e é legítimo. Está tudo certo! Violentar-se pra quê? Portanto, agora já não espero nada, apenas resolvo a minha vida. Sinto que embruteço e essa é a forma de lidar com o mundo. Tenho que ser aquela que resolve tudo, que faz e conversa, negocia e se defende, escolhe e decide. Aquela que atravessa a cidade e se multiplica para resolver todos os problemas da ida e da permanência. Que entra em cada vagão dessa vida, buscando um espaço, um refúgio e saídas. Estou virando uma mulher de pedra, rígida, um homem. E hoje sei um pouco o peso que sobrecarrega os ombros de um homem, entendo melhor a sina. Deve ser muito difícil ser homem o tempo inteiro. Inevitavelmente, lembro de Neruda: Acontece que me canso de ser homem. Acontece que entro nas alfaiatarias e nos cinemas murcho, impenetrável, como um cisne de feltro navegando numa água de origem e cinza. O cheiro das barbearias me faz chorar aos gritos.  Só quero um descanso de pedras ou de lã, só quero não ver estabelecimentos nem jardins, nem mercadorias, nem óculos, nem elevadores. Acontece que me canso dos meus pés e das minhas unhas e do meu cabelo e da minha sombra. Acontece que me canso de ser homem. Eu também, meu Camarada, estou cansada de ser homem. Aliás, sempre fui sozinha para enfrentar os embates nas ruas, onde alguma injustiça era cometida. Desde muito nova, combato nas ruas, encaro desafios, encaro situações onde muitos se acovardam. Tive e tenho que negociar com homens grosseiros que prestam serviços, que boicotam e fazem sabotagens porque estão diante de uma mulher. Medo de ficar sozinha, no apartamento em reforma, com um desconhecido e, ao mesmo tempo, pressentir que serei sacaneada porque não paguei o abusivo preço que pediu. Meses depois, ter que consertar o apartamento da vizinha porque o sacana, o escroto fodeu a parede de propósito, num lugar imperceptível, mas que provocou um vazamento escabroso. Ter que utilizar estratégias de sobrevivência ante o olhar das mulheres com seus maridos, em confronto visível com a vizinha solteira. Defender-me nas filas do DETRAN, do mercado e enfrentar a arrogância dos colegas de trabalho. Enfrentar a ojeriza que alguns têm quanto à atividade poética. E ainda lutar contra o meu desequilíbrio, diante desses acintes tão pessoais e tão levianos. O palavrão é o que ainda me salva de um enfarto. Preciso fazer yoga para ouvir esses impropérios e ser serena! Logo, cansei de ser homem! Cansei de Ser! Ser homem, sendo mulher, então, é o diabo! E eu não sou uma mulher moderna! Eu sofro! Eu ainda sofro! Ainda sinto a sua falta, ainda me preocupo, ainda amo e estou certa de que tudo está bem assim, desse jeito! Sou uma mulher fragmentada, partida em mil pedaços. Só não há arrependimentos! Sigo e também me desvencilho e amo e sinto a falta de outra pessoa e sinto amor, desejo, e ofereço o meu carinho e a minha proteção e o meu corpo inteiro para outro homem. Eu ainda – passado tanto tempo – ainda choro. E ainda estou dentro do trem, esperando chegar a próxima estação. E morro de mil medos. Mas estou inteira na Existência. Não perdi a vaidade nem a ternura, ao contrário. Eram necessários rituais muito íntimos e sutis para ser capaz de sobreviver à dor. Essas coisas tão necessárias para levantar o astral, inclusive arrancar de dentro a alegria para que o resto da vida fosse leve, iluminada. E rezar, rezar muito.
É necessário pra caralho você encarar que está sempre sozinha. É a tal da orfandade que sempre enxerguei no ser humano. Em todas as circunstâncias, mas principalmente quando você tem alguém que já não está com você. Outra grande e difícil aprendizagem da distância e da separação foi não atribuir tanta culpa ao outro. Entender que o outro também tem suas razões, suas infinitas maneiras de ver e encarar a vida. Então, você precisa entender que não é a sua versão dos fatos que é a verdadeira face da verdade. Se os seus desejos são ignorados perpetuamente, você é violentada e, dessa forma, precisa cair fora. Simples assim, ou deveria ser simples assim.
As malas estão prontas e as caixas também, recolhidas ou compradas nos mercados, atacadões, calçadas de lojas. Foi tudo empacotado durante a semana e estivemos juntos nessa tarefa, separando livros, um dizendo ao outro o que seria mais útil ficar com quem. Os CDs já eram naturalmente divididos, classificados. É claro que alguns equívocos ocorreram, mas há um momento em que esse ritual é civilizado demais para quem um dia se amou ou se ama, então é melhor cada um ir pro seu canto e quem vai partir preparar a mudança.  Amanhã, vou pegar o trem. Vou embora.  Está tudo pronto. Olhamos um para o outro e rimos tristes, sem graça. Eu abraço você e choro, sempre foi assim. Sabemos que é preciso negligenciar o sentimento, ignorá-lo e encarar a realidade. Não podemos mais viver juntos. Principalmente eu, tenho que deixar de olhar para o que sinto e tomar decisões. A decisão!

Ando mais forte ultimamente. Ainda fico nervosa, ansiosa, sem saber o que fazer com as mãos. Às vezes elas tamborilam no sofá ou na mesa. Por isso a psicóloga, afinal era necessário tentar resolver o nervosismo, pois já estava entrando em colapso. Tremi tanto meses atrás, numa discussão com você. Um ataque que me paralisou os movimentos. Pensei que surtaria vendo a impotência diante dos gestos. A incapacidade de, por segundos, voltar a dominar o corpo, a boca aberta, quase babando. Estava entrando num esgotamento e era grave. Ou tratava a vida ou adoeceria; ou entrava em sintonia comigo e com os meus desejos ou surtaria completamente. Andei muitos anos sem me ouvir, sem atender a minha alma.
As sensações vêm do mar. Preciso tomar a decisão. As ondas são desafiadas por mim, enquanto caminho e pergunto o que devo fazer. E peço força para saber escolher. Ando rápido por entre as águas do mar pisando firme a areia e pedindo força, sabedoria e paz. Ainda espero uma palavra sua capaz de decidir as nossas vidas. Há agora a impossibilidade e a inutilidade da sua palavra. Já não há mais tempo! A atitude não veio e agora é tarde. Está feito! Já estabeleci um prazo e sei que isso é só uma convenção, mas necessito de limites, tempo, calendário. A minha memória encontra formas de eliminar as coisas que doem mais profundamente e sei que elas serão apagadas de mim Ao mesmo tempo em que isso atenua a minha vida, causa um pânico em mim como se fosse sintomas de uma demência futura ou um Alzheimer silencioso que desde sempre deu os seus sinais, através dessa desmemória eterna e apaziguadora.
Tanto que, às vezes, eu me vejo culpada, déspota e algoz nessa situação toda. Esqueço! Tenho que fazer um esforço para recobrar todo o sofrimento represado durante anos e os desejos que naufragaram para sempre dentro de mim, devido unicamente ao seu ego, egoísmo, à sua egolatria fingida, disfarçada em altruísmo. Idolatria perpétua aos seus projetos com a fauna e a flora brasileira. Enquanto em meu quintal, o trilho do trem nascia, brotava me convidando para partir de uma vez por todas. O trilho surgia na minha cozinha e entre nossos lençóis, em meus olhos. O trilho era a toalha com desenhos de vaca e ele explodia a nossa mesa redonda de madeira. O trilho irrompia a pia e todo o piso da sala, do quarto, do banheiro. O trilho invadiu a nossa cama e eu me cansei de ser homem!
Hoje, estou aqui nas mesmas praias em que já estivemos antes e olho tudo diferente, como se nunca, em minha vida, eu estivesse estado aqui em sua companhia. Como se somente no meu passado, ainda solteira, eu estivesse estado aqui e sozinha. Absolutamente sozinha! A água está barrenta e parece suja, mas já estivera verde e o céu imperava o seu azul em todo o horizonte. E era num tom de alegria e força que eu agitava as águas e andava sem erguer os pés, como se o meu peso fosse capaz de também realizar algum milagre. Um milagre em mim.
Haverá a hora em que o trem passará e eu preciso estar na estação. Ouço um homem vendendo pamonhas. As malas estão sobre um guarda-roupa muito alto e os meus pés não as alcançam. Vejo meu pai morto sentado na cama da velha casa, dizendo: fique assim não, Preta! Vejo você como Netuno, sorrindo pra mim, largo, iluminado e me chamando para uma foto com pressa, urgência. Num tempo todo seu que eu nunca consegui acompanhar. Tenho vergonha de correr e você me quer correndo pelo shopping para pegar o elevador. E eu corro, corro, mas a sessão de cinema já começou e eu detesto assistir filme iniciado. Continuo correndo para alcançar suas pernas de homem, largas, grandes, fortes. Eu corro para o trem, mas ele parece passar por cima da nossa cama, enquanto dormimos. Morremos esmagados pelo trem, mas já estamos à mesa comendo e rindo.  Estou atrasada, pois sei que o trem passará. Sinto-o se aproximando pelo barulho que faz nos trilhos, pela fumaça e o meu coração que retumba no mesmo galope. Tenho que partir e preciso chegar logo. É hora! Alguém me segura pelos pulsos e eu me debato, resisto, mas não consigo gritar, falta voz. Você me acorda e diz: eu estou aqui, Margarida. Mas eu não sou Margarida nem você é Roberto. Quando tento olhar você, fixamente, vejo tantos rostos e também eu não sou aquela que toca o seu braço. Você me escapa quando tento abraçar você; quando tento dizer adeus, seu rosto me foge completamente e vejo outros homens desconhecidos e sinto a angústia de quem precisa partir; sinto a solidão dos rochedos; a solidão de quem precisa chegar logo, antes que morra. Eu preciso aprender a correr, eu tento correr devagar, mas as pernas me atropelam e o trem parece que vai partir sem mim ou irá me partir. As malas no alto do guarda-roupa, as malas nas mãos do vendedor de pamonha e eu tentando alcançá-las.
          Amanheceu. Um vento forte entra pela varanda do quarto. Tudo escurece e eu resolvo levantar: é preciso pegar o trem! Lembro de um setembro em que acordei você e disse: acorde! O dia hoje está especialmente bonito! Você acordou e dividimos aquele esplendor de luz, brilho e deslumbramento que o dia trazia. Pássaros completavam tudo. À noite, enquanto víamos o jornal, a apresentadora disse que aquele era o dia mais bonito do ano! Hoje, entretanto, ninguém anunciará que é o dia mais tenebroso da minha vida. Sei que é uma separação definitiva. Mesmo que tentemos novamente, é definitiva. É dia de ir embora. O mensageiro do vento balançou bastante e anunciou a despedida; a ventania e o cinza do céu contribuíram para o dramático que se instalava em mim. Estou devastada. Entanto, a ordem é lidar com a situação de forma prática. Desde umas sete horas da manhã, já estava pronta para ir à sessão com a psicóloga. Seria a última. Estacionei e vi homens na piscina, jogando na varanda, e enfermeiros circulando entre eles com intimidade. As flores e as árvores do lugar acalmavam sempre a apreensão desse primeiro momento. A casa era um centro de recuperação para dependentes químicos, além de atender a pacientes como eu, que precisavam de ajuda psicológica ou psiquiátrica. A conversa girou em torno da mudança, que seria dali a algumas horas. Não lembro mais a sensação do corpo, mas eu era naquele dia um tremor na alma. Sei exatamente que a esperança estava em mim e eu a escondia da psicóloga de alguma forma, mas ela adivinhava. Tínhamos cumprido o objetivo dos nossos encontros. Eu estava preparada pra partir. Deixei a clínica aliviada porque as sessões já eram desnecessárias para nós duas. Um alívio para ambas.

          É a hora do trem passar sobre mim. O carro de mudanças já está em casa. Livros, discos, roupas, uma cadeira, uma cômoda, uma escrivaninha. Somente coisas íntimas. O resto já me aguardava na nova morada. Há testemunhas, família, mas só você me interessa e me importa ali, naquela hora. Saber que estará bem. A sua aparência é tão natural, tão tranquila e até mais leve. Só eu sofro? Nunca saberei de tantas coisas. Nem mesmo as evidências revelarão tudo o que eu nunca saberei. Sei que muito foi escondido e sei da importância mínima que monjas e cabritas representam ao meu universo; são meras simbologias das suas taras; arquétipos da sua natureza de macho. Nada importam monjas e cabritas meditando e berrando sobre seu pau. Tudo é maior em mim. Apaguem as luzes, fechem as cortinas! Eu nasci!
          Somente agora, acariciada novamente, sinto o quanto me tornara um homem, uma mulher embrutecida. Somente agora, nem sei quanto tempo depois de tudo, percebo como é bom ser desejada e protegida nos braços de outro homem, mesmo que de forma indefinida. Ou até mesmo por isso! Por ser precário, indefinido e efêmero seja exatamente o que preciso. Sem os perrengues de uma relação desgastada, nem as idealizações das relações duradouras. Tenho aprendido a lidar com o indefinido. Tenho aprendido sobre incertezas e apostas. Tenho aprendido a amar o nada. E gosto muito de estar comigo sozinha, fazendo coisas que somente nós duas – eu e eu - podemos fazer. Rir da felicidade por exemplo. Voltei a ouvir música e frequentar festas, bares e voltei a sorrir com mais leveza. Descobri o sabor de ouvir alguns DJs e voltei a dançar sozinha em uma festa, vendo os amigos e as amigas sorrirem. Em paz. Estou aprendendo a conversar novamente com gente da minha tribo. Voltei a beijar no meio da rua, na rodoviária, entre as gentes, nos shows. Voltei a ficar embalada no colo de alguém e sair de mãos dadas pelo mundo e isso é maravilhoso! Aprendi também que envelheci e que essa condição nova requer adaptações, posturas e muita liberdade em vários aspectos. Danem-se todos! Fodam-se todos! Eu envelheci! Voltei a ser livre e entender novamente sobre o meu processo de sedução. O meu corpo voltou a ser investigado por mim, descoberto, observado. E mesmo quando estou feia, descontraída, desarrumada, descubro que sou capaz de rir e provocar risos com o meu humor. Capaz de provocar encantamentos inócuos que não nos levarão à cama, nem a relacionamentos sérios, mas que podem provocar deslumbramentos no outro, e podem provocar Poesia em mim. Poesia. Olhares, toques e um selinho amoroso que resultarão num poema. E é disso que tenho vivido: de poesia e de acontecimentos poéticos, de viagens, encontros. As linhas de expressão parecem cortes brutais feito por alguma lâmina e esse susto já me acompanha há tanto tempo! Uso cremes, olho o espelho e rio de mim, afinal, sempre tive esse ar de preocupação peremptória em minha testa. Rio ainda mais! Como poderia, de uma hora pra outra, me transformar numa mulher sem rugas de preocupação na testa? Sempre tentei entender o mundo, as gentes, as situações, as aulas. Aprender sobre silêncios e distâncias. Aprender sobre enamoramentos e inspirações. Aprender a não tremer diante das provocações que me fazem, afinal, já sou uma Senhora e posso enfartar definitivamente. Voltei a buscar as essências e as coisas essenciais. Enfrento as estradas e passo por ferrovias desconhecidas, em busca. Busco gentes preciosas ao meu espírito e encontro vertigens, vultos, fotos que me remetem ao que já foi demolido. Sinto desejo de ser útil aos que amo e que ficaram tão distantes da minha vida. Tudo é uma grande alucinação, um desvario e é real. É a minha Existência, o meu tempo. Amanheceu! Amanheceu e eu não quero que apaguem as luzes, nem fechem as cortinas! Sou uma estudante novamente. Leio essas folhas a cada dia e estou atenta para aprender, para saborear, degustar, absorver! Parti, cheguei, estou na estrada, no mar, no rio, nos mangues da minha terra. Olhem, já está na hora do trem passar, preciso ir!
* Conto extraído do livro , Outro Livro na Estante (Contos inspirados em músicas de Raul Seixas) Editora Mondrongo.
Música - A hora do trem passar
* Imagens Pinterest

Rita Santana nasceu em Ilhéus. É atriz, escritora e professora. Em 2004 ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Em 2006, Tratado das Veias (poesia) é publicado pelo selo Letras da Bahia. Publica Alforrias (poesia) em 2012, pela Editus. Em 2019 publica Cortesanias (poesia), pela Caramurê, e participa do Festival Internacional de Poesia de Buenos Aires.








Comentários

  1. Conto denso e belo! No auto da idade fisguei:
    Viver a essência das coisas e o essencial.
    Isso me basta. Bjs

    ResponderExcluir
  2. Sensacional! Já tinha lido no livro, mas, agora, poderei compartilhar virtualmente com várias pessoas.
    Parabéns, Rita!
    Abraços.
    Dom Paulo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

A terapia da palavra em quatro poemas da jovem escritora Maria Luiza Brasil

A beleza no humanismo e na denúncia da poesia de Edir Pina de Barros

PodPapo 09 - entrevista com a escritora, editora e coordenadora do Focus Brasil NY Nereide Santa Rosa

Um conto de Marithê Azevedo | "Céu Escuro"

Para não dizer que não falei dos cravos | Poemas e videopoemas de Rogério Bernardes

Divina Leitura | As multiplicidades de "Santuário" de Maya Falks

Quatro poemas de Helenice Faria | Uma poética da resistência

Três poemas de Dayane Soares | Uma poética do tempo e da ancestralidade

Um miniconto de Silviane Ramos | "De que cor ficou?"

Três poemas de Oluwa Seyi | A fagulha da vida