Mulher de Palavra 02 - Por trás da história


Mulher de Palavra 02 - coluna de entrevistas literárias

Por trás da história
por Maya Falks

Hoje, 07 de abril, comemoramos o Dia da Jornalista. Sim, da jornalista porque esse é um espaço de valorização do trabalho de mulheres. Mas não foi a data que me motivou na escolha da primeira entrevistada dessa coluna; foi a dedicação que ela demonstra em correr atrás, investigar e contar histórias.

Daniela Arbex é jornalista reconhecida que foi parar na literatura exatamente pela paixão que nutre por contar histórias, e por ser incansável nessa missão. Foi assim que se tornou uma jornalista/escritora multipremiada com obras que figuram há anos nas listas de mais vendidos - só o livro "Holocausto Brasileiro" já vendeu mais de 300 mil cópias e virou documentário.

Ao todo, Daniela acumula mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, tanto na literatura quanto no jornalismo, como o cobiçado Jabuti e o tradicionalíssimo Prêmio Esso, três vezes. Entretanto, números e troféus não são a maior marca de Daniela Arbex; a jornalista mineira é um exemplo de profissionalismo e responsabilidade na arte de narrar histórias reais, tragédias reais, que envolvem pessoas em sofrimento, um trabalho que exige o máximo de sensibilidade, e Daniela tem de sobra.

Convidei Daniela para essa entrevista via redes sociais, suando frio, afinal, eu sou uma aprendiz na arte que ela domina como poucos, e o pronto aceite dela me deixou exultante - agora imaginem minha reação quando vieram as respostas. Não que eu não soubesse disso pelo tanto que a acompanho há tempos, mas além de talentosa e competente, Daniela também esbanja humildade e simpatia.


1. Como o jornalismo entrou na sua vida? Era a profissão que você queria ou aconteceu por acaso?

O jornalismo não entrou na minha vida por acaso porque não existe acaso, eu decidi que queria ser jornalista ainda na adolescência, eu tinha cerca de 13 ou 14 anos e acreditava que o jornalismo era uma profissão transformadora e eu realmente, intuitivamente, acabei acertando, porque eu sou muito feliz como jornalista até hoje.

2. A descoberta da literatura como ferramenta para narrar histórias jornalísticas se deu de forma gradual ou já era seu objetivo quando escolheu o jornalismo como profissão?

A literatura entrou na minha vida como uma grande porta que se abriu pra mim. Quando comecei na carreira, não tinha a menor ideia que eu ia me tornar uma escritora, que eu ia escrever livros, enfim, eu queria ser a jornalista que eu sonhava em ser. Mas, depois de 15 anos de profissão, essa porta se abriu pra mim e eu me apaixonei pela literatura porque foi a literatura que me apresentou ao país, através da literatura o público pode conhecer meu trabalho; meu trabalho era muito conhecido no meio jornalístico, mas eu não era conhecida do público em geral e a literatura me deu essa oportunidade.

3. “Holocausto Brasileiro” é uma das obras de jornalismo literário mais icônicas e reconhecidas da história do país. Como surgiu a ideia de trabalhar esse tema?

O “Holocausto Brasileiro” surgiu na minha vida em 2011 quando, durante uma entrevista que eu fazia com um psiquiatra da minha cidade, ele me mostrou algumas fotos que foram tiradas dentro do Colônia em 1961 pelo fotógrafo da Revista O Cruzeiro, Luís Alfredo, e eu fiquei tão impactada quando vi essas imagens – na verdade tive acesso a essas imagens em 2009, mas eu só comecei a investigar em 2011, dois anos depois, exatamente quando as fotos completaram 50 anos – então eu fiquei tão impactada com as fotos que a primeira coisa que eu quis foi procurar os sobreviventes, e eu queria encontrar aqueles que tinham sido fotografados pelo Luís Alfredo 50 anos antes. Então minha busca se deu 50 anos depois, e você não imagina minha surpresa quando eu comecei a achar o primeiro sobrevivente, depois o segundo, e depois eu cheguei a 160 sobreviventes.



4. Você lida com temas bastante tristes, que mexem profundamente com o leitor, como os mortos da ditadura, os maus tratos aos abandonados em um hospital psiquiátrico e mais recentemente as vítimas da Boate Kiss, tema ainda mais doloroso por ser um fato ainda bastante recente e presente na memória de todos. Como é para você essa coleta e compilação de dados para compor os livros tendo que mergulhar fundo em histórias tão dolorosas?

Você falou bem quando você fala de um mergulho profundo. Eu realmente mergulhei profundamente nessas histórias porque não eram histórias que faziam parte do meu cotidiano e eu queria entender de forma profunda o que havia se passado nesses contextos, seja da loucura, da ditadura, seja na Boate Kiss, que era uma história que todo mundo achava que já tinha sido completamente contada e a gente acaba descobrindo que havia muitas coisas ainda a serem reveladas. Então eu me entrego pra essas histórias, eu acho que essas histórias merecem que eu ofereça minha escuta qualificada para esses personagens e que eu dê voz a quem não tem. Eu acho que o jornalista não é um super herói, ele é um ser humano, e é claro que essas histórias me afetaram profundamente também, afetaram minha rotina familiar, mas independente das “sequelas” que eu tive ao ter acesso a essas histórias, eu me senti altamente privilegiada, por ter tido a oportunidade de dar voz a quem não tem e por ter tido a oportunidade que essas pessoas confiassem a mim as suas histórias, as suas memórias afetivas, então isso foi um aprendizado incrível para a minha vida, foi mágico poder ter acesso a essas pessoas e ver que elas confiaram a mim coisas tão íntimas e tão dolorosas, eu me sinto privilegiada.


5. Estamos vivendo uma pandemia como não se via há um século, quando tudo isso terminar, você teria o interesse de contar essa história?

Então, Maya, é lógico que como jornalista eu tenho muita vontade de contar a história dessa pandemia pelo mundo, mas eu também tenho outros projetos que também são prioridade, que são necessários e que também precisam que a gente se debruce sobre eles, então eu não sei se eu vou ter essa oportunidade por conta desses compromissos anteriores que eu já assumi, mas sem dúvida é um tema fundamental. Só que eu acho que agora a gente está no meio do olho do furacão, então a gente precisa de mais tempo para poder fazer uma reflexão sobre o que está acontecendo.

6. Suas narrativas são muito bem amarradas e estruturadas, você pensa em usar seu dom narrativo para obras de ficção?

Acho que esse namoro com a ficção já acontece e talvez um dia ele se torne um casamento, mas eu sou muito apaixonada pela reportagem e o compromisso social com a reportagem... vamos ver... quem sabe no futuro?

7. Existe algum projeto em andamento para lançamento próximo? Se sim, pode nos contar ou ainda é sigiloso?

O próximo livro já está pronto, ele ia ser publicado agora em junho, mas por conta da pandemia a gente adiou e a nova data prevista é agosto. É a minha primeira biografia e eu estou muito animada com a surpresa que essa obra vai trazer embora eu não saiba a receptividade que ela vai ter, foi um trabalho muito especial pra mim.

8. Que conselho você daria a jovens jornalistas e escritores que gostariam de se aventurar nos livros-reportagem?


O conselho que eu daria para qualquer jornalista, que antes de ser um escritor você tem que ser um jornalista, é que primeiro goste de gente, segundo goste de contar histórias, são duas características essenciais para você ser um bom jornalista. 

À Daniela e a todas e todos jornalistas desse país, registramos aqui nossa homenagem.

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