Poesia de sobrevivência - Publicação coletiva


Lílian Goulart


Sobre as dores e alguma esperança dos nossos dias


TÃO BREVE STAR


quando eu partir, penso que será nessa ocasião o dia de entregar o relatório. nada comparado a qualquer método até aqui por mim conhecido. imagino que será algo mágico, telepático, osmótico, instantâneo. agora, da maneira como eu poderia fazê-lo, seria mais demorado e poético. emociono-me de tal forma inexplicável com o fato de eu estar viva. não me recordo sequer quando foi dado este sim para a minha existência. mas uma das coisas que tenho pra mim é que não suporto isto, de verdade. não fui capacitada para aguentar tanta maldade com os seres orgânicos e inorgânicos desta esfera imensa, linda, misteriosa. não vim armada para não me identificar com tantas experiências de horror e holocausto. talvez do outro lado eu já soubesse do quanto os danos sofridos há milhares de anos por este sistema planetário prejudicaram a raça humana, mas eu não tinha ideia de que o meu equipamento pessoal não aguentaria o sofrimento a tal ponto de que, hoje, se eu fosse embora, teria no meu relato a marca da reprovação e também a estrela da misericórdia e um abraço.

*virginia finzetto


 morte anunciada


e daí, tantas mortes?
deve ser por pura falta de sorte.
não sou milagreiro,
muito menos coveiro.
nunca quis enganar ninguém
:
pró-armas, tortura e muito vintém.


*Roberta Gasparotto
Lílian Goulart

Que que tem?


"Que que tem eu por meu filho como embaixador"?
"Que que tem eu mexer nos direitos do pobre trabalhador e não tirar um centavo das regalias políticas"?
"Que que tem eu fazer uma passeata sem máscara, tossindo, limpando secreções com a mão e cumprimentar o povo em plena pandemia"?
"Que que tem eu chamar uma pandemia mundial de gripezinha"?
Que que tem eu nomear gente da PF, de minha própria confiança e amigo do meu filho, que que tem"?
"Que que tem eu me ajoelhar aos pés de Edir Macedo"?
"Que que tem eu incentivar a violência, com arminhas e querer o povo armado e não amado"?
"Que que tem eu defender a moral da família dita tradicional brasileira e ter filhos com várias?
"O que que tem eu ter sido expulso do Exército"?
"Que que tem"?
"Que que tem"? praticar tiro ao alvo enquanto pessoas morrem no mundo todo, inclusive em terras de "Santa Cruz"?
.
Que que tem? Eu sou o Presidente, eu posso!
Sou o mito, o messias!
.


* Lílian Goulart


 SONETO DA QUARENTENA


Eis que de repente, veio a pandemia.

Será que não é apenas um sonho?
O fim do mundo que o outro temia?
Não, minha gente, não é fantasia.

Teoria da conspiração? Não!
Não adianta inventar desculpas,
A hora é de cuidados e ação.
Só quem se nega a enxergar tem culpa.

Culpa por quê, alguém perguntaria?
Culpa por se acovardar, seu narciso.
Coragem é também amor, você sabia?

Solidariedade é valentia.
Protegendo a vida no paraíso,
Fazemos por nós e à nossa família.

*Chris Herrmann

Lílian Goulart



AO SAIR, APAGUE A LUZ

O país em delírio coletivo
o rei insano, proferindo brados loucos,
carregando consigo vassalos ensandecidos,
enquanto nós, parecendo poucos,
nada conseguimos,
estáticos, trancafiados em nossos desesperos tantos.
De que adianta a minha casa guardada
se lá fora tanta gente dando a cara ao tapa
da morte - já tão forte -
procurando-nos de porta em porta?
A vida suplicando trégua,
a vida sussurrando rouca:
- haverá melhor caminho para o nada?

*Nic Cardeal

De surpresa

Pele esquentando
A força sumindo...
O ar foi passear
Não quer voltar...
Aprisionado está.
Medo...?!
Não sei ainda...
Não sei o que estou
Sentindo...
Estava bem...
De repente fraca.
De repente frio...
Frio....
Eu juro
Não planejei partir
Assim...
Também não sei
Se parto agora...
Ou se é apenas
O parto....
O susto
Do nascer
De novo...
*Ana Cleusa Bardini
Lilian Goulart

Tempo

Calcular o tempo para que?
O início ficou no passado,
O presente está rolando, separando,
E o futuro, um sufoco a resolver.
O tempo está se complicando,
Sem beijos, afagos e abraços,
"Estar contigo" e " te ter comigo"
Não se sabe mais quando...
Tempo, sem tempo...
Hoje e amanhã mudaram de rota
E os momentos partem sem chegar.
As palavras estão perdendo o sentido,
Os prazeres não compartilhados,
E o querer, bloqueado!
Tempo...que tempo...
Indecisões, conflitos, boatos,
Batalha não entendida
Terra adubada por corpos
Convivências esquivadas
E a tristeza nos profanando.
Sem medir o Tempo,
Prosseguimos caminhando
Em busca de uma luz
De aspecto divinal,
Que limpe o planeta Terra
E nos transporte para
o nosso tempo,
Estranho tempo, que nos faz feliz!

*valdete bomfim

A duras penas

Há um certo milagre
no verso
que geme às portas da morte
Há, por certo, margem
de esperança
no olhar por cima do pano
nas mãos em abandono
do lado do corpo
que espreita e teme
Há, de certo, a fé
persistente
nos passos apressados
em busca do pão
Tanta fragilidade
escrita às penas
de morte
Estamos largados à sorte.

*Lua Serena
Lilian Goulart

COMPAIXÃO

coro(n)ados pela ameaça
que nos assombra
constritos
isolados
impedidos de nos darmos
com paixão
é mister aprender
a beijar com os olhos
e abraçar com os ouvidos.
*Ana Valéria Fink

O FUTURO
Dona Covid,
estou ocupada.
Sinto não poder recebe-la.
Tenho muitos planos.
Lugares para conhecer.
Pessoas para compartilhar.
Tenho uma carreira pelos próximos anos.
Quero
ler,
viajar,
chorar,
transar,
engordar,
emagrecer.
Quero
namorar muito.
Tomar um vinho.
Comer chocolate.
Andar de parapente.
Pescar em alto mar.
Escalar uma montanha.
Fumar um cigarro estranho.
Quero viver experiências incríveis.
Quero conhecer meus futuros netos.
Como vês,
Não há como hospedá-la.
Tens a capacidade de piorar tudo.
Não tenho tempo para seus caprichos.
Tens o hábito de matar seu hospedeiro.
Quando
todas as minhas aventuras acabarem,
posso te receber e te contar tudinho.
Prometo.

*H.Ricken

Lilian Goulart

Caso reto

a vida conjuga no passado
eu – caso reto – declino o presente
já o futuro flexionamos
( todos) no improvável
*Lota Moncada

APARTADOS

Imantados pelo que nos envolve,
isolados em nós mesmos,
ilhas mutantes
dependentes do macro,
a mercê do invisível julgamento
apocalíptico, apartados
do que pensamos vida.
Serão privilegiados os imunes
ou os que restarão na estiagem?
Catarse do excesso
expurgado do desconhecido.
Refazenda, reinício,
possibilidade para o inusitado

*vania clares

Lilian Goulart

explicações sobre o imponderável

não é nada
é só uma cruz
branca com um número
é só uma urna improvisada
é só a terra cobrindo um corpo
vê? tem até flores enfeitando o pequeno espaço
é só um vírus comendo mais um corpo
é só a morte sendo asfixiada
vê?
não há milagres
nem há deus
nessa pátria armada
* Angela Zanirato


Insônia

Dentro da noite veloz meus pensamentos seguem lentos. E as respostas vazam por dentro da blusa lilás. Transparente.
Abro as janelas internas e tento reavivar o meu ser cansado de tantos caminhos inacabados. Tento dormir mas o barulho das veias e artérias agonizando dentro de mim explodem dentro da noite enluarada. Morri. Pra amanhã florescer lentamente antes que as folhas amarelem nas árvores....

*Ana Carlota.

Asfixiados

Não era o medo da morte
E sim de como nos matamos
Não era o medo do escuro
E sim de como apagamos as luzes
Não era o medo da multidão
E sim da nossa imensa solidão
Não era o medo das ruas, das mãos
Era o medo de quem somos!
Nosso novo mundo arrebentado
Correntes, máscaras, vírus e verdades
À tona nas principais manchetes
Dos inúteis noticiários das cidades
Que tentaram, em vão, despertar
O ar da nossa última humanidade.

*Mariana de Almeida

Lilian Goulart

Resistência

O mundo viveu guerras
crises, genocídios, catástrofes
as pessoas não deixaram de se apaixonar
criar, comemorar pequenas vitórias
celebrar Natal, Páscoa...
Continuemos a vida.
E a resistência.

Vera Ione Molina

Do que se (es)vai em silêncio

Há momentos
Em que
Não sabemos
A quem falar

O silêncio
Replanta
A ausência
Dos que
Já se foram
Quantas
Máscaras
Até que se
Vença a morte
E os acenos
De Adeus?
Qual espelho
Reflete
A clemência
E o medo
Da solidão?
O tempo
Já não
Enxuga
A lágrima
Do quê se
Despede
A cada
Instante.

*
Luiza Cantanhêde

Lilian Goulart

Para erguer o mundo

Não tocar
no próprio rosto
nem na ponta do nariz
passar longe das mucosas
e de toda cicatriz
passar longe dos homens
dos perfumes das mulheres
não exalar
- nem o que vem do mar
Lavar bem as unhas, e ainda
prender bem
os cabelos
- se possível, dormir bem
Não abrir a porta
pra ninguém
- não sair também
trabalhar como a ostra
pra dentro pra dentro
a pérola
da vez.

*Ana Paula Olivier.

confinamento

levei tão ao pé da letra
isso de ficar em casa
a rua é outro planeta
irei só paramentado
(armadura emu escafandro)
pra evitar a mortalha
* líria porto
Lilian Goulart

Seres humanos
merecem humanas esperanças
em meio a tantos lamentos
tanta crueldade, indiferença
silêncio, em memória
aos que não tiveram tempo
nem chance
de lamentar
*Ines Lempek

Vai passar

tudo vai passar
esse medo
incontrolável
do desconhecido
também
vai passar
esse sentimento
de pavor
ao invisível
é normal
também
vai passar
vai aflorar
a força
divina
que existe
no coração
de cada
ser humano
procure a sua
ela está aí
esperando
o momento
certo

*Cris Arantes

Lilian Goulart



Primavera sombria

Vibra nestes tempos de catástrofe muda de incerteza
Uma Primavera obtusa dos homens assombrados pelo mostrengo invisível
Que lhe invade o sistema e o corrói por dentro em ânsias proféticas
Carimbando passaportes para o reino incógnito que sustem a vida como se fôssemos
Os desperdícios de uma outra vontade que se dilui nas criaturas anémicas
Enleando-se um bordado de eterno retorno germinando dentro da campânula que protege em trejeitos vãos
E ao mesmo tempo asfixia nos abraça e nos corta a garganta
Nos dá livre-arbítrio e nos decepa as mãos
Primavera obscura!
Incute nos homens de poder o respeito pelo planeta que nos acalenta
E pelos seres que connosco permanecem
Como se fosse um cerimonial sagrado de água benta
Primavera vazia onde as pessoas se recolhem em casa
Pois a maleita espreita e o medo alastra
Os preconceitos afloram em gente que outrora foi delicada
E o ser humano transforma-se em besta incerta e desnorteada
Incorreta medonha e no semelhante anseia dar a final facada
Primavera meu amor!
Traz a força para nos tornarmos benfeitores
E incute nos governantes a humanidade que lhes falta
Afastando a soberba que conduz um povo para a inevitável morte
Primavera silenciosa de ruas nuas onde uma flor grita às outras
Que é tempo de acordar para o sol de germinar e ter esplendorosa sorte
É hora de incutir nos homens a responsabilidade de todos para com todos
Que o dinheiro angariado à custa de guerras sem lógica
Esmaga a criatividade genuína e abafa o amor como motor primordial
Que põe em movimento o afastamento do genocida qual espantalho do mal
Esta mensagem silenciosa tem de ser recebida
No interior de cada indivíduo de coração dadivoso e sereno
Para que passada a ansiedade e o rescaldo de Verão
O Inverno cinzento e chuvoso seja promissor e ameno

*Maria Oliveira

Tudo dói

Do colapso nos hospitais,
que não é de hoje,
mas que se escancarou
com o advento da pandemia,
à visão dos caixões
descendoàs trincheiras
sem impactar o messias
do "e daí"?
Ô pobreza humana!
A minha aposta é na força
do amanhã.

*Cissa de Oliveira

Lilian Goulart

Clausura

Através das vidraças
contemplo um pequeno recorte
da vida lá fora:
Velhos coqueiros
agitados pelo vento
balançam suas palmas
fazendo surgir
vez por outra
nuances de fúcsia
em nuvenzinhas frágeis
que se esgarçam
desoladamente
em mil fragmentos cor de rosa.
O céu e as muitas águas parecem que se tocam
na palidez do horizonte
de todas as angústias.
O silêncio branco
deita sobre o mar sem ondas,
triste espelho opaco,
a abrigar distantes uivos
fundos e sentidos
das águas profundas
que choram sombrios presságios.
O ar seco e cortante
desfolha os sorrisos das rosas de abril
embaça o viço
ceifa a beleza
preserva só os espinhos
a lacerar o mundo
que sangra
perplexo.
Frágil e impotente
recolho-me.
Enclausuro todas as minhas faces.
Mais que o cárcere de concreto,
as teias do medo infiltram-se
no vazio dos dias opacos
feitos de aflições e muita neblina.
portas cerradas
coração oprimido
braços que não abraçam
risos recolhidos
ausências...
Debruço-me em lembranças difusas
e tão recentes!
Divago...
Pesadelo ou realidade?
Que dia é hoje?
não importa
é dia de abismo.
Atravesso a noite
atenta às estrelas
que latejam nostalgia
estranhamento...
Escuto as lágrimas do mundo
silenciosas e sentidas
eco pungente
de dores inexpugnáveis.
Insone
espero que a chegada da Aurora
reacenda
majestosamente
as luzes de um novo dia
e possa ressuscitar
todos os ontens
quando “ éramos felizes e não sabíamos”.

*Agueda Magalhães


fatos

sobre o riso de ontem
sobra o silêncio
a lágrima turva
o desespero.
sobra uma esperança
recolhida a dedo
entre as dobras dos lençóis de outrora
que agora pousam limpos
[ultra brancos]
à custa da água sanitária
que engole a casa.
sabonetes/detergentes
garantem a limpeza
de mãos e caras.
os sapatos à porta
esperam.
o desinfetante não limpa
nem perfuma


o cheiro de morte lá fora.

*Lia Sena

*Um agradecimento especial à artista plástica e poeta, Lilian Goulart, que gentilmente cedeu as lindas ilustrações.

*A publicação atendeu à ordem de chegada dos poemas nos comentários do post. Gratidão a todas as poetas participantes!








Comentários

  1. O momento é triste, mas é salvo pela poesia, enquanto pudermos resistir e sobreviver. Belo projeto e edição, Lia. Obrigada.

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    Respostas
    1. Eu agradeço a oportunidade de fazer esse registro, Chris!

      Excluir
  2. Parabéns as poetas. Material de sensibilidade e de reflexão para a quadra em que vivemos.

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  3. Num mundo tão doente
    que nos salve a poesia.

    Ficou show!

    Gratidão por estar.🙏❤

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  4. Registra-se aqui um Documentário Artístico Poético dos tempos em que estamos vivendo em 2020. Um tempo que entrará para a história com muita dor!
    Uma prova também de que na dor e falta de inspiração, precisamos extrair leite de pedras.
    .
    Sintamos um grande e diferente abraço! ♡

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  5. Agradeço a participação de todas, a colaboração de Lilian Goulart com as ilustrações e o carinho de todes!

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  6. E na poesia nos encontramos. Que possamos dar voz aos que não sabem falar. Grata pela publicação e parabéns pelo belíssimo projeto.

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