Resenha do livro infantojuvenil NO RISCO DO CARACOL, de Maria Valéria Rezende

(ilustração da capa: Marlette Menezes)

UM CARACOL RISCOU MEU CORAÇÃO 

por Nic Cardeal 

Caracol é um molusco terrestre, que carrega nas costas uma concha em espiral - quase uma casa ambulante. Ele anda levando a concha sempre consigo e, quando necessário, guarda-se todinho dentro dela - é sua melhor proteção em momentos de perigo.

Caracol também é um habitante do jardim de 'uma tal de Maria', que adora escrever haicais, 'quase haicais', romances, e tais e tais! Multiarteira essa tal de Maria!

NO RISCO DO CARACOL é um livro infantojuvenil (poesia/haicai) escrito por 'essa tal de Maria' - MARIA VALÉRIA REZENDE - em 2008 (3a. edição em 2011, Belo Horizonte/MG: Autêntica), e lindamente ilustrado por Marlette Menezes. Foi vencedor do Prêmio Jabuti 2009 - 2° lugar na categoria infantil.

A autora escreve, em forma de haicais e de 'quase haicais', sobre 'coisas' encontradas em seu jardim logo depois de uma chuva. Como ela diz no livro, "o haicai é um pequeno poema de três linhas inventado pelos poetas japoneses" (2011, p. 6). 

O caracol do quintal da Maria Valéria é um caracol muito esperto, ele anda tão bonitinho fazendo marquinhas prateadas pelas folhas, que até inspirou a autora a começar o livro escrevendo essa belezura:

"O caracol desenhou
linhas de prata
no ouro da folha seca"
(2011, p. 10)

Todo o livro se desenvolve a partir do caminho (ou risco) daquele caracol! Dali em diante, os poemas seguem para a folha seca, fazendo sequência com o pé que pisa na terra sob o sol do verão. Logo chega a vez da cigarra e do grilo, escurece e a Lua cheia vem trazer o sonho, que pode ser dormindo ou até acordado:

"Grilo no telhado
cantando pra Lua cheia
e eu sonho acordado"
(2011, p. 15)

Se for acordado, o sonho atravessa o verão, pula o outono e vai dar logo de cara com o inverno, no banho na bica do telhado. Mas pode brincar de imaginação, pois vale tudo nesse livro tão arteiro, porque inverno também é tempo de fogueira e milho verde no sertão! Tem festa, tem até forró, assim diz o haicai 'dessa tal de Maria':

"Roupa nova e festa
forró, sanfona e seresta
em junho dá gosto ver"
(2011, p. 19)

A autora sabe como ninguém dizer muito em palavras poucas, porque haicai bom é assim mesmo: faz a gente imaginar um mundão de coisas com um simples risco de caracol visto na folha (ou no chão)! Ela fala do bailado, das bandeirinhas, da escuridão e até de assombração! Pode chover, não tem problema algum, porque da janela se faz um barco de papel, se recolhe o gato, e até se lembra do rato.

Este livro é assim, feito um passeio que começou no jardim, o caracol fazendo rabisco, a cigarra cantando, e o grilo 'cricando' pra Lua cheia! O passeio foi dar no telhado, depois do banho de bica e da festa, foi a vez de ficar em casa na hora do frio e da chuva, com o gato e o rato! Porque quando o inverno chega, 

"Tudo que é bicho se esconde:
só fica o risco de prata
que o caracol desenhou"
(2011, p. 30)

Se eu fosse você, não perderia por nada,  vai logo mostrar à criançada como se faz um livro tão  divertido, que começa e termina no risco de prata que o caracol desenhou no jardim! É bem possível que esse caracol desenhista também risque de amor seu coração!




MARIA VALÉRIA REZENDE nasceu em Santos/SP, onde viveu até os dezoito anos. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora - Cônegas de Santo Agostinho.

Dedicou-se sempre à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste, vivendo em Pernambuco e depois  na Paraíba,  no meio rural até 1988 e, desde então,  em João Pessoa,  onde está até hoje.

Em 2001 lançou seu primeiro livro de ficção,  'Vasto mundo'. É também autora de 'O voo da guará vermelha', 'Modo de apanhar pássaros a mão',  'Ouro dentro da cabeça ', 'Histórias daqui e d'acolá', 'Hai-quintal: haicais descobertos no quintal', 'Quarenta dias' (vencedor do Prêmio Jabuti 2015), 'A face serena', 'Outros cantos' (vencedor dos Prêmios Casa de las Américas, Jabuti 2016 e São Paulo), e 'Carta à rainha louca'.


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