A Poesia reflexiva de Vânia Ortiz - cinco poemas



Carmen Luna


Traços

Traços abstratos,

esboços tímidos,
lampejos de insegurança,
linhas paradoxais
confluentes num só ponto.
A intersecção da alma,
forma empírica/erudita,
detalhe fosco à carvão,
tela sobre o cavalete.
O trem passa e ela fica:
lacuna de obra inacabada
à espera de imaginação.

Carmen Luna

Destino

É a vida que se fissura nas mãos

entrelaçadas no tempo
e as nuvens que se desdobram,
são crepúsculos perdidos.
É o mundo rodopiando
na instabilidade dos polos,
no eu que geme
a perda de ser vida.
São os dedos calejados
Agasalhando as palavras,
são versos perdidos
nas entrelinhas dos vocábulos.
São as louquices dementes
com que se sorvem venenos terrenos
e os atos crentes dos descrentes
jazem, dissimulados.
É a vida, a humanidade, a morte
no amor transformado de gente.
É o ato de renascer
parindo-se no choro bravio do parto.
É o ciclo que recomeça:
o teu e o meu,
nas páginas do destino.


Carmen Luna

Luta

Perto dos sonhos os pesadelos são mais fortes.

Perto dos fortes os fracos são mais unidos.
Antes da ferida vem o corte.
Para achar-se é preciso estar perdido.
O corte, o sangue, a morte.
O bálsamo, a cura, a vida.
Da vontade ao sonho.
Do sonho ao plano.
Do plano ao ato.
Do ato ao fato.
E o fato?
Engano ou sorte?
Ferida ou morte?
Cura ou corte?
De fato,
o que nos mantém vivos
é a capacidade de recomeçar,
sonhar outra vez,
sangrar e curar
após cada engano,
cada anoitecer.
Apesar da insensatez
ressuscitar.
Vence quem cala
porque o silêncio é bala
não calma.
O silêncio é o barulho da alma.
Ave-santa
Graça!
Não há verso que se faça,
poesia que se cria,
arte que nasça
sem esse grito de dentro,
ecoado e atento
buscando a luz.
Não há poesia feita antes, nem depois.
Poesia é agora, instante.
Não escrevo aos outros,
mas pelos outros.
Através deles
versos se criam no ninho da observação.
Silêncio, mansidão.
Do que há em mim, mas oculta-se
do que sobra.
Se não escrevo aos outros,
escrevo dos outros o que me falta,
o que me salta.
Meu verso é isto: ou é falta ou é sobra.
meramente intenção.

Carmen Luna

Grito

Há um silêncio
grávido de palavras
que anseiam nascer.
Há palavras sendo abortadas
antes mesmo do amanhecer.
Há risos presos
em nós na garganta
feitos de lágrimas
que insistem em escorrer
pelo peso do silêncio.
Há gritos desesperados
ansiando amanhecer.

**
PROCURA

Onde buscar a sabedoria das palavras
quando o coração se recolhe em silêncio
e, com sentimentos já tão desgastados,
veste-se de ansiedade e se cala.
Já não sou ontem,
e o hoje se perde
em lacunas frias.
Já não busco sonhos,
apenas o ar.
O som teima em atravessar as paredes.
O chão bruto sob os pés
é concreto.
O resto
são respingos esparsos
de um dia que passou
sem deixar marcas
em mim.




Vânia Ortiz é formada em Letras, Pedagogia, Pós-Graduada em Gestão Educacional, Especialista em Neuropsicologia, Mestre em Linguística Aplicada, atua como Diretora Pedagógica e Consultora Educacional. É, também, a idealizadora e a responsável pela ATHOS ASSESSORIA E CONSULTORIA EDUCACIONAL. Amante da literatura, da poesia e dos livros, usa seu tempo livre para ler e escrever.

Comentários

  1. Sobre Vânia Ortiz só tenho a dizer que é uma pessoa linda por dentro e por fora,sabe colocar seus sentimentos na poesia que escreve, como pessoa não a conheço pessoalmente,mas é como se conhecesse, simpática e amável 🌷

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