Uma crônica homenagem - Por Esther Alcântara

Ary Ferreira


A duras e doces penas

por Esther Alcântara

Era meio da tarde, mas precisei acender a lâmpada do quarto-escritório porque escurecia mais cedo na iluminada Salvador. Janela aberta ao alcance dos olhos, voltei ao computador, feliz por ter um pequeno trabalho de revisão em plena quarentena.
De repente a explosão de luz, um estrondo... Gritei! Como eu, o computador também reagiu aos relâmpagos e trovões: desligou na minha cara, deselegante. A lâmpada também se apagou, e todas as luzes do céu iluminaram as árvores do morro à vista, adentrando a janela.
Foi tudo ao mesmo tempo, e no instante seguinte constatei ainda estar viva. Lembrei de como minha mãe me acalmava: "Quem morre de raio nem ouve o relâmpago". E aconselhava: "Desliga tudo"; "Melhor deitar". Eu e o Tom obedecemos e nos deitamos. Nenhum de nós já havia sentido tanto medo ante a chuva e seus "acessórios".
Raios e raios e raios... por pelo menos uma hora, sem trégua. Em segundos retirei os aparelhos da tomada e peguei o primeiro livro da estante, sem o luxo de escolher. Era de contos e fiquei feliz com a desescolha, que prosseguiu na fortuita abertura das páginas. Tentando abafar o som da fúria que vinha de fora, somado ao barulho das vidraças que se batiam, comecei uma leitura em voz alta. Logo nosso medo também foi abafado pela história. Das páginas, vi voar o medo de um pardal sem pouso na tempestade, e também mulheres aflitas em seu ancestral cuidado, refletindo minha mãe nas tempestades da infância de que havia acabado de recordar.
"A duras penas" era o nome do livro sorteado em minha estante, uma preciosidade escrita pela pena da Edna Rezende. Ô sorte! Bem diz a irmã da autora sobre a excelente companhia que era Edna, que partira antes do combinado. Mas gente boa não parte de verdade, e nesse dia a Edna nos aconchegou com suas palavras, embora eu nunca tenha experimentado o prazer de prosear com ela ao vivo.
A duras penas também aprendi a me cuidar, e tantas vezes me vi à deriva como o pardal de Edna. Mas tantas outras encontrei refúgio num colo, num acalanto, num conto de uma boa contadora de histórias!
Quando acabei a leitura, já havia calma no céu. Levantei-me e descobri que havia perdido o trabalho e o computador. Mas estava tudo bem.
Apesar de frágil como o pássaro do conto ante tempestades, vivíamos só mais uma delas nestes meses de quarentena, por si só mais uma tormenta da vida, com suas duras e doces penas.
Sobreviveremos e viveremos, concluí, deixando-me iluminar pelo arco-íris de esperança que passava a colorir o mais profundo de mim.
Esther Alcântara
Da série “Crônicas de quarentena”.

Dedicada, com gratidão, à escritora Edna Rezende (em memória).



Esther Alcântara é paulista e hoje vive em Salvador-BA. Poeta e cronista, atua profissionalmente como editora e revisora de textos.



Comentários

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

Mulher Feminista - 16 Poemas Improvisados - Autoras Diversas

Cinco poemas de Jacinaila Louriana Ferreira | "a voz que insiste em gritar"

Poemia 01 | Tempo - por Chris Herrmann

Elas me fazem de gata e alpercata | Desfile de meowdas 1 - Publicação coletiva

Coluna 11| Fala aí... Evinha Eugênia Andrade (Brasil)

Coluna 04 | Mulherio das Letras na Lua - JAMMY SAID (Brasil)

Especial Arte | Yara Tupynambá

Coluna 09| Fala aí... Liège de Melo (Brasil)

Coluna 03 | Mulherio das Letras na Lua - CECÍLIA DIAS GOMES (Portugal)

Preta em Traje Branco | Dois Versos Vibrantes de Oyá