Resenha do livro de minicontos SIMPLÍCIOS E CONFÚCIOS, de Gloria Kirinus





CASO DE POESIA ENTRE 'SIMPLÍCIOS E CONFÚCIOS'

por Nic Cardeal 

Em SIMPLÍCIOS E CONFÚCIOS (Curitiba/PR: Kotter Editorial, 2019), um 'fazer poético' de 71 minicontos, GLORIA KIRINUS trabalha a palavra como o escultor que modela a argila em busca da forma, mesmo que dispensada a fôrma. Os destinados desta forma são os nomes - aqueles nomes condicionadores de destinos. Cada um dos pequenos contos é um verdadeiro 'achado nominal', e os nomes, por mais estranhos que pareçam, encontram cada qual o seu lugar exato na trama sempre surpreendentemente escrita por Gloria! Como, por exemplo, no conto da menina que se chama ESTRELA: 

"Quando aprendeu a escrever seu nome desenhou uma estrela. Foi essa a primeira lição aprendida de tanto ficar de barriga pra cima, sobre o gramado, soletrando estrelas. Na escola, a professora achou graça, no começo. Depois implicou seriamente: - Estrela, você precisa escrever e não desenhar seu nome. Estrela fez de conta que não ouvia. Só mais tarde, bem mais tarde, na vida adulta, ela descobriu que não era fingimento, que ela era, de fato, uma estrela surda e muda. Mas não ficou triste, afinal, estrela já encanta e brilha no melhor do silêncio.  E, como se fosse pouco, faz constelação." (pág.  97).

Em 'Simplícios e Confúcios', é possível  compreender porque "há nomes que condicionam destinos" (Moacyr Scliar) (pág. 9). Ali, os personagens são autênticos destinatários das pequenas histórias, criadas por Gloria em profundidades incríveis! Nelas, os 71 personagens podem ser o Domingo, o Arlindo, o Resolvido, a Manuscrita, a Indecisa, o Sol, a Lua, ou até a Rotina! Como bem descreveu Roseana Murray na quarta capa do livro: "Gloria Kirinus, com maestria, fabrica seus pequenos contos com a matéria dos nomes. Cheios de nonsense, misteriosos e insólitos,  não terminam nunca de nos habitar, nunca nos cansamos de mastigá-los como frutas raras e surpreendentes. São uma delícia,  o mundo precisa deles!"

Tudo é possível na imaginação da autora, porque a pérola da sua palavra sempre é máxima, ainda que as linhas sejam mínimas. Gloria é especialista no encontro da palavra com a poesia, ainda que em prosa! Esse livro comprova seu mais sagrado ofício: juntar contrários, revirar avessos, pendurar equilíbrios,  encontrar sentidos! Porque, como já dizia Manoel de Barros, "o verbo tem que pegar delírio" - e, em Gloria, o 'fazer poético' é o melhor verbo 'delirado' no alinhavo da palavra com a linha (mágica) da metáfora! Ah, bendita essa 'Glória' da metáfora!

Parafraseando Drummond, não há dúvida  de que essa mulher "é mesmo um caso de poesia"! Perfeito caso de amor dessa incrível operadora de fantasias, que segue com maestria sua missão literária de recortar palavras no algodão dos sonhos, fazendo surgir sentido até em nomes inusitados - recortados das insônias, extraídos da rotina, encontrados no arbusto e na flor - tecendo a trama de uma prosa poética que flutua, mesmo quando aportada ao cais da alma, onde plantações extensas de esperanças serão, por certo, colhidas aos montes em novas eras! Porque o delírio (ou a lira) da poesia é do meu, seu, nosso direito, do lado esquerdo do peito!




GLORIA KIRINUS é peruana, naturalizada brasileira, e residente em Curitiba/PR. Graduou-se em Turismo pela Escuela Nacional de Turismo em Lima (ENT) em 1971; em Letras-Português pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1986; em Letras-Espanhol pela UFPR em 1991; especializou-se em Literatura Brasileira pela UFPR em 1987. Concluiu o mestrado em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ) em 1991; o doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) em 1998; e o pós-doutorado pela Université Paris Descartes em 2014.


Colaborou com páginas de poesia, crônicas e ensaios, no Caderno G da Gazeta do Povo, e já foi jurada por mais de 10 anos do Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.


Recebeu o título 'Mérito da Educação' no Estado do Amapá, e o prêmio 'Bosque de Leitura' na cidade de Ponta Grossa-PR, entre outras distinções. É integrante da Federação Internacional de Educadores Freinet, da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil e membro do Conselho Consultivo do site de Leitura e Literatura Infantojuvenil. 


É tradutora literária, além de criadora e ministrante da oficina de criação literária e pedagogia poética, Lavra-Palavra. Escreveu os  seguintes livros bilíngues de literatura infantil e juvenil: 'Quando Chove a Cântaros' (Cuando llueve a cantaros), 'Te conto que me contaram' (Te cuento que me contaron), 'Tartalira', 'Quando as montanhas conversam' (Quando lós cerros conversan), 'O galo cantou por engano' (El gallo canto equivocado), 'Se tivesse tempo' (Se tuviera tiempo), 'Sete quedas, sete anões e um dragão' (Siete cascatas, siete enanos y um dragón) e 'Lâmpada de lua' (Lámpara de luna). Também publicou, em português, os seguintes títulos: 'Aranha castanha e outras tramas', 'O sapato falador', 'Menino do mar', 'Entre dezembro e janeiro', 'Os números primos e seus sobrinhos', 'O camelo e o camelô', 'Carta para el niño', 'Formigarra, Cigamiga', 'Um barco em meu nome', 'Um sol em meu nome', e 'Um antônimo em meu nome'; além dos livros teóricos na área de Letras e Educação ('Synthomas de poesia na infância' e 'Criança e poesia na pedagogia Freinet'). 




Comentários

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

Machismo estrutural | Quando a imprensa também exclui as mulheres

Uma resenha de Marta Cocco | "Uma Diva na passarela estreita do Jabuti"

Um poema de Mar Becker | "à parte do reino"

Uma série pictórica de Neide Silva | Flores do Cerrado

Cinco poemas de Tatiane Silva Santos | "No sonho"

Yedda Maria Teixeira | o prêmio da arte de amar

De Prosa & Arte| Nosso Corpo não é Bagunça!

IX Tertúlia Virtual | Vozes e Olhares de uma Poética do Feminino

Um conto de Ciça Ribeiro | "O doce bombom"

A poética que roça os sentidos | Banquete poético