A vocalização é um teto - Marilia Kubota


MOSAICO 08 Resenha
Por Marilia Kubota

"Morada" (Feminas, 2019), de Catita, nome artístico de Cátia Luciana Pereira, evoca,em epígrafe, os castelos imaginários de Carolina Maria de Jesus na abertura de seu livro: "É preciso criar esse ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela." A autora ergue a construção poética com paredes, janelas, portas e teto, como uma casa. Nesta casa habitam palavras, sonhos, e também monstros.

Um dos monstros deste pequeno livro é uma das chagas sociais que tem persistido no Brasil, desde o sucesso de"Quarto de despejo".  Uma mulher negra pode ser escritora ou poeta ? As vozes potentes de Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Miriam Alves, Elisa Lucinda, Cidinha da Silva, Cristiane Sobral e tantas outras afirmam que as mulheres negras têm um lugar na literatura brasileira. Não é mais preciso esconder uma Maria Firmina dos Reis como a primeira romancista brasileira ou embranquecer a poesia atrevida de Gilka Machado.

Catita denuncia que o monstro do racismo é mais feroz do que todos os personagens fantásticos do imaginário africano, ocidental ou oriental. Agindo de forma sutil,  é mais violento do que todos os medos da sociedade contemporânea: 

Monstro imaginário

Meu monstro não é sem cabeça, de uma perna só,
carrega um saco, mora no escuro ou parece o Boitatá.
Meu monstro não vem da África, Ásia ou Oceania,
muito menos dos castelos europeus.

Meu monstro não é um boi, nem tem a cara preta,
não pega como a Cuca, não mora embaixo de minha cama.
Meu monstro não me atormenta na lua cheia ou na sexta-feira treze,
muito menos me espreita nos bosques hollywoodianos.

Meu monstros não está na rua deserta, na arma do bandido,
no ponto de drogas ou após a faixa amarela do medo.
Meu monstro não é a infecção, o câncer,
a cegueira ou a amputação.

Meu monstro, calma e solenemente,
sem alarde, embora espere resposta,
apenas diz:
"Você não vai conseguir."
Desconstruída, Kátia Horn.

Um poema singelo consegue desmontar edifícios e monumentos retóricos erguidos com o propósito de afirmar a superioridade moral de etnias ocidentais. Não à toa, há poemas em que aparece o choro, as lágrimas, o banzo. O racismo traz as marcas da submissão, do discurso em que o outro é  inferior e incapaz. E para sustentar este discurso, não hesita na desqualificação e na aplicação da dor:

Pelos sete palmos

Não faço poema
Porque um dia me disseram,
Me medindo de cima a baixo,
Que esse tipo de coisa não era para mim.
Quem era eu?
Não escrevo poema
Porque um dia me revelaram
Que tudo o de mais belo que eu podê-lo-ia pensar escrever já o fora,
Assim, com essa pedante mesóclise
E esse estranho pretérito mais que perfeito,
Ambos indecifráveis para aquela garota de doze anos.
Quem era eu?
Não crio poema
Porque um dia me riram feroz
Que poeta mulher é poeta menor, quicá nem poeta.
Quantas eu conhecia?
A ingenuidade confundia meu raciocínio?
Não me enxergava?
As listas e nomes sempre foram de autores homens.
Quem era eu?
Não formulo poema
Porque um dia me segredaram
Que até eu conseguir falar algo de interessante
Que não fosse minha vidinha de mulher, preta, pobre
E meus pequenos dramas,
Talvez eu já estivesse morta.
Que experiências eu teria?
Que grandes feitos eu realizaria?
Quem era eu?
Não invento poema
Porque um dia me desafiaram
A que se eu conseguisse botar comida na mesa
Já deveria levantar as mãos pro céu
E agradecer.
Que eu me conformasse em ter um trabalho,
Uma vida digna
E parasse com devaneios.
Quem era eu?
Não componho poema
Porque um dia tentaram me convencer
De que literatura só é assim chamada
Se não for compreendida
Se não for acessível à massa
Se estiver nos programas da academia
Se estiver nas grandes editoras.
O resto não era literatura.
O resto era gritaria ou choradeira.
O resto era só manifesto.
Quem era eu?
Não gero poema
Porque um dia me sentenciaram
A que fecundo em mim fosse apenas meu ventre
Minha função romanticamente mais bela
E talvez única
A ser reconhecida como produtiva.
Com meu útero doente de mim extirpado,
Coitada! Desnecessária. Inútil.
Quem era eu?
O primeiro poema brotou em mim
Rompendo cada um dos sete palmos
De não.
E eu fui e sou
Quem eu quero ser.

Há quem insista que a literatura feita por mulheres carece de qualidade. O que faz a qualidade de escritoras que convivem diariamente com a estigmatização  é a aguda consciência social. Consciência de que a diferença entre o discurso elitista e o dos sem-voz só se aplaina com a qualificação da vocalização. E mesmo, agora, com espaço para a voz, a sua dona não se curva a trejeitos cultuados da classe média, que só consegue se dobrar sobre si mesma, fazendo ouvidos moucos ao lugar da dor.

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