A poesia plena de Angela Zanirato - cinco poemas


Gabriel Moreno


Iniciática
  
atravessei meu mar
morto
pra renascer ancoradouro de mim
meus barcos naufragados
submergiram à fúria de minhas ondas internas
cicatrizei ferida do casco
fechei vãos
preenchi vazios
-já entendo de tormentas e tsunamis
sou anfíbia
na noite plena de peixes.



Gabriel Moreno


Ziza

grávida de seis meses
ouviu comentários:
vão prender o grupo dos onze!
aqueles, que comiam rosas vermelhas
o marido, ferroviário, fazia parte do grupo
correu ao quarto esconder o livro de Marx
subiu na escada
o velho guarda roupa despencou sobre seu corpo
o sangue escorreu pelas pernas
lavou o chão
a ditadura invadia também os úteros
foi assim que a criança não nasceu
um filho de comunista a menos
disseram as famílias de bem da cidade.


Gabriel Moreno


Das vaidades
 

não é qualquer tábua
que me salva
não me prego em qualquer cruz
choro a seco
tudo que costura feridas
dispenso
não esterilizo nem o pensar
todo corte será história
toda lágrima engolida será memória
toda dor será fotografia
não maquio cicatrizes
a vida exige crueza
luvas cirúrgicas?
são só vaidades.

***

Confinamento

eu era longas asas
ela me entregou à santa de devoção
sonhava- me hábitos e vigílias
eu sonhava voos
saltos altos
batom carmim
ela sonhava prisão
para conter tanta liberdade
desejava-me cadeados e muros
correntes e fechaduras
éramos sonhos
andando em direção adversa

hoje cumpro sina
clausura auto imposta



Gabriel Moreno

Vigília


meus olhos em estado de alerta
uma aflição congênita no peito
sofro em conta gotas
a minha cara ,minha cara
de guerreira vencida
em labirínticas noites

há formatação no silêncio

coração arrítmico: 120/140
-toma meu pulso
-confere a ansiedade
confirma!

há uma plasticidade viva na insônia

me recuso a dormir
preciso vigiar -me
ouvir-me
acomodar meus fantasmas
lançar pedidos de socorro
em vãos

logo vai amanhecer
comme d'habitué
o pássaro vai cantar

penso nas Marias e Rosas
que também sofrem
solitárias

o arco do dia se abre em cinzas

o dia também tem seus estatutos.

***


Angela Zanirato é professora de História, Pós-Graduada pela UNESP de Assis e pela UEM, Maringá.
Participou do Mapa Cultural Paulista versão 2015/ 2016, onde foi classificada para a fase final na modalidade conto . Participa da Associação de Escritores e Poetas de Paraguaçu Paulista- APEP. Tem poemas publicados várias antologias.   Foi publicada  nos sites : Blocos Online , Parol , Movimiento Poetas del Mundo , Antologia do Mapa Cultural Paulista edição 2015/2016 ,versão  ebook ,Revista de Ouro Revista Ver- O- Poema ,  Revista InComunidade , Mallarmargens e Revista Digital Literatura e Fechadura.






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