Eu também sou brasileira - Marilia Kubota


MOSAICO Coluna 09   Crônica


Eu também sou brasileira
por Marília Kubota


Drummond tem um célebre poema em que diz: “eu também já fui brasileiro, moreno como vocês.” O poema foi escrito nos anos 1930. Ainda vigorava o estereótipo do brasileiro como nativo carioca ou baiano,  queimado de sol. Desde fins do século XIX, o governo incentivava a imigração europeia, com o propósito de “branquear a raça”.

Além de indios, portugueses, espanhois, negros e judeus que já integravam o caldeirão cultural étnico, entraram no país os brasileiros diferentes - a maioria italianos, mas também alemães, eslavos e asiáticos. Já na segunda geração, italianos não eram diferenciados pela etnia, o que não aconteceu com alemães e asiáticos.

Depois de mais de 110 anos de imigração, filhos e netos de japoneses ainda são identificados como japoneses, ou estrangeiros. Tentam nos definir através de estereótipos: somos quitandeiros ou pasteleiros, inteligentes, bons em matemática, disciplinados, obedientes, falamos a língua japonesa. Os homens são guerreiros (samurai) e praticam artes marciais e as mulheres, gueixas (artista que entretém homens). Um estereótipo ressalta a agressividade masculina e outro, a submissão e hiperssexualização feminina.


  Hanafuda, Alice Shintani, 2012

Irritante é chegar num lugar em que ninguém me conhece e ouvir “Ohayô” (Bom-dia, na língua jáponesa) ou “Arigatô” (obrigado), para parecer simpático. Ou falar que tem amigos japoneses e adora comida japonesa. Gosto de culinária japonesa, mas também tenho paixão por culinária árabe ou nordestina. Poucos se dão conta que não perguntam a descendentes de europeus sobre suas etnias.

E há quem diga: você parece mais “japonesa” do que brasileira. A timidez é a característica pela qual se identifica um japonês, além dos traços físicos. Daí dizer - em geral, entre os próprios descendentes - “você é japonesa”. Na comunidade de descendentes de japoneses, todos querem “parecer brasileiros”. Ou seja, sambar e comer “feijoada com sushi”, ressaltando a integração Brasil-Japão. Mas esta também é a preservação do estereótipo da assimilação harmoniosa.

Os brasileiros de etnia japonesa não precisam realizar a cerimônia do chá nem desfilar no Carnaval. Podem ser artistas, escritores, políticos e até guerrilheiros, como Suely Yumiko Kanayama. A estudante de Sociologia, que se tornou ativista da guerrilha no Araguaia, era chamada de “japonesa” entre os camaradas, mas foi uma brasileira excepcional. Morreu para defender a liberdade e até hoje não encontraram seu corpo.

Espero que um dia possamos reconhecer a diversidade étnica, celebrando como brasileiras Suely,  a haicaista Teruko Oda,  a cineasta Tizuka Yamasaki, as escritora e ilustradoras Lúcia Hiratsuka e Tereza Yamashita, a poeta Leila Guenther, as artistas visuais  Érica Kaminishi e Alice Shintani, as jornalistasThais Oyama e  Marina Yukawa, a psicólogo Laura Ueno e tantas outras.  

(Esta crônica está incluída no livro homônimo, a ser publicado pela Lavra Editora)


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