Vinte e dois microcontos - por Chris Herrmann

fractal by m.h.



Vinte e dois microcontos
por Chris Herrmann



Ao longo dos últimos três anos, acumulei alguns microcontos. Parte deles, foram para um projeto da Lílian Sais e do Andre Ricardo Aguiar, no Literartéria. Pensei até em juntar mais alguns, e organizar um livro. Talvez eu ainda faça isso. Mas hoje me deu vontade de deixá-los livres, para leitura e interpretações diversas e de versos. Espero que apreciem a leitura.



꧁01

Sobre os lençóis de seda, a sede.




꧁02

Ela desceu o morro. Continuou lutando até morrer. Sempre presente.




꧁03

Sinuosidades o capturavam.
Ela se insinuava mais.
Fogo em Alcatraz.




꧁04

Dois suores evaporados sobre um lençol encharcado. Silêncio e exaustão.




꧁05

Lá fora não existia.
No quarto, elas ressignificavam as estrelas.




꧁06

Cama rangendo, paredes finas e um copo voyeurista.




꧁07

A relva ciciava sob os sussuros.
A lua calava.




꧁08

A viúva não compareceu sozinha ao velório. Trouxe seus olhos de outono, um semblante de inverno e o coração fora de estação.




꧁09

Livros sobre o criado-mudo. Ao lado, gemiam as fantasias literais.




꧁10

o mundo nas costas.
Morria, diariamente, de asas atrofiadas.




꧁11

Sonhou ser engenheiro.
Nunca concretizou,
mas construiu muros de si.




꧁12

Contava moedinhas.
Não era Tio Patinhas.
Nasceu preto.
Morreu pobre.




꧁13

Coroas chegavam. A família ansiava os cetros decadentes do reino sem lágrimas. Um corpo destronado em meio à despresença: o mais vivo de todos que descansava alheio.




꧁14

Crente no pastor,
agora é a ovelha negra
da família.




꧁15

Nasceu para causar. 
Sua vida se tornou
um causo sério.




꧁16

Passou a vida mentindo.
Morreu só, sem viver de verdade.




꧁17

Caiu no mundo
depois que largou o imundo.




꧁18

Comprava amores onerosos.
Morreu do coração num hotel barato.




꧁19

Seu nome era Maria das Dores.
Maria, ela não conhecia.




꧁20

Ela esperava que ele mudasse.
Ele mudou de amante.




꧁21


Viuvez era a verdade nua.
Vestia-se de tristeza.




꧁22

Enquanto ele procurava as palavras, ela o lenço. Hoje ela ri daquele desfecho tenso.




Comentários

  1. Saudades encontradas ao acaso, de tempo dividido que a memória guarda de outa mais tua, mas admirável, Adriana Aneli, degustando amor expresso.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

A Poesia renova esperanças: Júlia Alberto, 14 anos, Poeta.

PodPapo 01 | Entrevista com a escritora Rosângela Vieira Rocha

Uma crônica em tempos de quarentena - Por Marta Godoi

A poesia terna e lúdica de Alessandra Sanches

Fotografia 5 | Projeto Pixel Ladies + Revista Ser MulherArte - Francine Tobin

Uma Mulher Admirável - Chris Herrmann

PodPapo 02 - entrevista com a escritora Lia Sena

Em uma Metáfora bem-humorada, o passado alerta o futuro: crônica de Marisa Zani

depois O Amor | um Romance apaixonante de Lia Sena

Quatro poemas de Rita Delamari